3.10.11

lejos, lejos

Os portais noticiam que a cúpula da emissora, numa reunião em Paris (sintomático), decide tirar o "humorista" da bancada do programa de TV que já teve o frescor de algo realmente novo e inovador. Repare como é fácil pensar que ambos são conceitos sinônimos. Pra mim, nunca foram.

O sujeito pode achar graça e fazer piada com as mulheres (as "feias", pelo menos) vítimas de estupro. Pode sugerir canibalismo ou pedofilia com o filho da cantora que é casada com o amigão do ex-astro de futebol. Pode desligar o telefone do repórter com um "eu só falo sobre o artigo (elogioso) do NY Times, é sobre isso?" (era sobre um inquérito, caro, que pena) ou sei lá, pode achar que os ataques contra casais gays na avenida Paulista são coisa de gente bipolar --afinal, não há limites pra piada que gente como ele se propõe a fazer, não é?

Dias atrás, numa conversa que --não me lembro como --enveredou para religião, a pessoa que falava comigo insistia no total livre-arbítrio do homem sobre o destino, sobre as "fortunas guardadas por séculos" pela Igreja católica e sobre o quão pedófilos ou tarados podem ser os padres de um modo geral. Graças a sabe a quê? Ao celibato.
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Você considerar que um humorista seja racista, preconceituoso ou apologista de atitudes criminosas (o que, pela lei, o torna tão criminoso quanto) logo faz levantar as armas dos que condenam a "patrulha ideológica", ou a "censura" --e gente que sequer ouviu, algum dia, um relato de quem de fato sofreu não só com a censura propriamente dita, mas com outras agruras mais doloridas de um regime ditatorial.

Dizer que uma religião é regida por homens e alimentada por algo tão subjetivo quanto a fé de cada um levanta um olhar de pena. Sugerir que o respeito entre os crentes e os incrédulos seria uma saída para uma pretensa (e ingênua, será?) harmonia, em vez de uma parte tentar convencer a outra com críticas pouco construtivas, soa como sintoma de idiotice. "Questão de convencer ou de questionar?", recebi. Tem pergunta que não carece mesmo de resposta.
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Talvez eu seja careta demais, simples demais nos meus pontos de vista ou, vai saber, ainda muito inconsistente neles pra afirmar, por A+B=C, por que confio demais ou rechaço por completo todos eles. Sabe aquela história da construção permanente? Minha crença é nisso. A vida é rica demais pra oferecer uma resposta pronta ou cheia de argumentos que comprovem uma tese única sobre cada aspecto dela.

E mesmo num tempo de liberdade como se propaga que é esse nosso, prefiro pensar que mesmo os tijolos de quem impõe a cor e a marca da argamassa são necessários e motivos pra eu agradecer. Aí sim é que nem precisa me convencer.
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8.9.11

eso no ecxiste

"Você já se adaptou?", pergunta em 11 de cada 10 oportunidades fora de SP. "Está feliz?", perguntam os queridos, mas não exatamente íntimos.

Não sei por que, esses dias encasquetei (#vem31feelings) com isso. Adaptação, na psicanálise, é algo como a ação do sujeito que modifica o meio e cria o equilíbrio do próprio ego. Não sei se um "sim, certamente" caberia dentro dessa interpretação: porque não sei se me adaptei à cidade ou se ela que me acolheu --com toda a aspereza que desponta pra quem insiste em ver nela só isso --me devolvendo, desafiadora, o velho "decifra-me ou te devoro".

Duas frases que me chamaram muito a atenção nesses 10 meses de vida paulistana. Paulista. Uma é a pichação num bar da Consolação; pichação velha, segundo os caros daqui. "É pouco hoje pra tanto ontem", já perto da Paulista, justamente o reduto mais repleto de hojes diversos na cena da capital. Sotaques, tipos, trejeitos, gírias, tudo misturado, diferente e cheio de sentido na massa que pára o trânsito dos carros quando resolve atravessar em bando cada esquina.

Imagino --na verdade, eu só tento imaginar --o beco em que deveria estar o pichador, ou quem bolou a frase, pra achar mesmo que o passado poderia tomar um espaço tão grande em presente e futuro. "O presente é tão grande / não nos afastemos". O que Drummond interpretaria? "Não nos afastemos muito / vamos de mãos dadas". Ok, Drummond, você venceu.

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"Não existe amor em SP", canta o rapper que já assinou "Criolo Doido", hoje só Criolo. Essa outra frase, nome de música, na verdade mais me desafia a achar um contraponto do que necessariamente me causa estranheza. "Não precisar morrer pra ver Deus / não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você", continua o rap melódico que compara a cidade a um buquê de flores mortas num belo arranjo.

Não sei se ele canta a São Paulo do trânsito desesperador (minhas mãos e pés que o digam, pois sofrem de nervoso) e da sujeira (quanta sujeira, quanta); a São Paulo das filas intermináveis pras tarefas mais simples ou pras mais pitorescas; a São Paulo das chuuu(...)uuvas de janeiro e do tempo que pode demandar manga curta ao meio dia e pashimina no pescoço, horas mais tarde. A São Paulo que vê filas no parque --verdadeiras filas indianas de bikes, triciclos e de gente correndo atrás de saúde (eu acho) --; que tem o transporte público caro (claro, o nosso é também o mais caro "do Brasil") e só eficiente porque, de carro, se levariam horas a mais. Só por isso.

Aí eu vejo de manhã, quando muita gente ainda está mal humorada pelo sono que sobra, desconhecidos dizendo um "pode segurar, por favor" ao oferecer o próprio braço como barra pra que a pessoa ao lado não surfe a esmo, entregue ao desequilíbrio, no vagão inundado por aquele mar humano.

Aí eu me esqueço do bilhete do transporte no dia chuvoso e conto as moedas, insuficientes --o cartão de débito não garante segurança ilimitada, sabe --, sob o olhar da senhorinha japonesa que, sei lá se ela se lembra da cara de tantos, mas fica ali na catraca todo dia. "Quanto você tem aí?" "R$ 2,25". Ela olha pro senhorzão da bilheteria blindada e diz um "pode vender. A diferença fica por minha conta" que salvou, se ela soubesse, mais que uma manhã de trabalho sem (muito) atraso. Salvou uma certeza, com broto já cheio de folhas novas, de que a letra do rapper está tão na superfície quanto um "você se adaptou?"

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Gosto de conversar com os taxistas. A diversidade de gente que eles transportam, tenho pra mim, os torna profissionais multidisciplinares: cada um tem um lado meio psicólogo, meio roteirista de novela e de documentário, meio antropólogo, meio cientista político, meio policial, meio animador de platéia, meio agente da CET, meio meteorologista, meio ombudsman do Datena ou dos "inimigos" do Datena. Alguns são meio escrituários de repartição pública, é verdade. Mas a imensa maioria tem pedaços de história de vida que quer passar adiante, ou quer receber a de quem está ali, ainda que temporariamente.

Ontem, o tiozão me explicou que a filha, recentemente falecida, tinha dito pouco antes pra ele que não sabia como fazer com que a filhota de dez anos não gastasse tanto, e sim, economizasse. Ele garantiu que tinha a solução: prometeria à neta que lhe daria o mesmo valor economizado se, ao cabo de cada mês, ela tivesse alguma quantia nos bolsos. Se a menina tivesse R$ 30 e os economizasse, portanto, teria R$ 60 na mão dali um tempo. Por essa, nem dona Armênia esperava. Estoicismo na chon, pensei.

Ele contou a história com umas gargalhadas sinceras, citando as elucubrações da neta pra deixar de lado, por exemplo, o lanche do McDonald's. "É um bom laboratório, não? Porque deve sair bem mais em conta pro senhor, no final", sugeri. "É mais em conta sim. Mas não é bem um laboratório: eu faço isso há anos com meu filho e é um sucesso". Nova gargalhada dele --acho que da própria esperteza, deve ter pensado.

E então, no meio hoje daquela fila de bikes e patins ansiosos pra passar, e, logo em seguida, na brisa que o chafariz gigante do parque proporcionou, eu tive uma grata sensação de que São Paulo tem muito desse tiozão do táxi. Ou não haveria tanto contraponto pra tanta frase pronta sobre esta terra, acredito.

Fitz & The Tantrums - Breakin' the chains of love

29.5.11

fotossíntese

A perda do bonde. Do ônibus. Do "avião de linha" (porque, afinal, o avião é - e não é - meu). É recorrente essa figura nos meus sonhos, não sei nem há quantos anos já. Pouco, mas pouquíssimo recorrente é aquela coisa de você acordar, se ligar que estava no meio de um sonho e decidir: vai voltar de onde parou, assim, como se a consciência fosse mera espectadora de um mundo paralelo sob o qual o controle é facultativo.

O curioso de acontecer isso hoje pela quarta vez (em mais de 30 anos) foi perceber que cinco minutos de sonho - talvez os mais afobados das minhas eternas perdas de viagem - equivaleram a exata uma hora de vida; o rádio-relógio judia, mas não mente. Na real, isso não tem importância alguma: me basta o alívio de acordar dessa vez (após muitas-e-espetaculares horas de sono) com a dúvida de ter perdido ou não a bendita condução. Porque, dessa vez, tinha duas razões de vida segurando o ônibus pra mim na rodoviária.
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Na outra ponta do meu sonho, talvez nas horas bem anteriores, encontrei novamente uma praia onde mãe e filho me acompanhavam na vacina contra a gripe. Muita conversa e afinidade, e um rosto conhecido ao largo, na orla, misturado, nele próprio, a outras feições também conhecidas.

Gozado, mas nem é questão de eu ser má fisionomista, não. Acho que minha memória talvez seja mais esperta do que eu pense, porque ela simplesmente deu pra me confundir. Cefalotórax + abdôme no que passou, é mais ou menos por aí.
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Lá fora faz uma vento gelado de doer os ossos. Bom pra se manter bem acordado.
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Eu tinha escrito o último texto pra esse blog. Postei. Deletei. Também é recorrente o pensamento de que tem algo ali adiante, e o meio de transporte até lá, ainda que eventualmente se perca por negligência, não cessa.
Esse movimento é contínuo. Ao menos, se pretende ser.
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18.4.11

de novo

Atravessar a Eusébio Matoso (ou Rebouças? nunca vou saber) ou encontrar o mendigo de sempre, com a perna torta de sempre, com a caneca imunda, à mão, de sempre? Essa é a dúvida que me faz partir pra rua dos Pinheiros sempre que preciso ir à agência bancária mais próxima. O luxo da Faria Lima é logo preterido pela deterioração humana e urbanística do Largo da Batata só pra evitar de ver, novamente, a cena de engavetamento bem ao lado, à uma da tarde.

O mendigo pedinte na porta do banco é menos corrosivo aos olhos e ouvidos - pode isso? - que o trânsito dessa cidade. Por enquanto penso assim.
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Reparei que a mendicância é meio um status de vida por aqui. São muitos, nos mesmos bat-pontos, e com uma altivez que eu não estava acostumada a ver num sem-teto. Lembrei da comunidade antiga "nos EUA, até pobre fala inglês" do empoeiradíssimo orkut...

Esses dias, chegando ao metrô, ouvi dois senhores no terminal de ônibus do lado de fora comentarem animadamente há quanto tempo 'moravam' nas imediações. São dois mendigos que às 11h estão sempre batendo papo, chapéu ao chão, e à noite dormem bem mais cedo que eu: quando passo, já estão na calçada oposta cobertos sabe-se lá com o quê.

O senhor do pé torto à porta do banco tem um jeitão mal humorado. Confirmei no dia em que perguntei a ele se precisava de ajuda pra atendimento médico e ouvi um "preciso é de dois real, moça, vai ter?", na resposta capaz de embriagar caso o tête-à-tête durasse mais alguns segundos. Ok, desculpa por existir, tá?

O estranho é que esse mendigo do banco (hum. faz sentido...) é gordo. Mendigo gordo. Antes de pensar na destinação ilícita do trocado, prefiro imaginar que não dando dinheiro eu estou é ajudando o sujeito. Não vai comer porcaria na rua. Não vai!
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Aí lembrei da senhorinha de 70 e muitos anos que ficava à porta do mercado Musamar, em Londrina, fazendo seus biquinhos de crochê em pano de prato. Vendia cada um por cinco, sete reais, mas com uma dignidade impossível de mensurar.

Atitude digna, sem dúvida. Mas cada vez que eu via aquela mulher tendo de vender pano de prato por necessidade, dava era um misto de nó na garganta e de revolta. País sem valores. Ou de valores trocados.
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Eu disse aqui um dia que queria que 2010 fosse um ano que deixasse saudade só das coisas feitas, executadas, não deixadas apenas na intenção. Cumpriu o voto.

Um 2011 de (re)descobertas, encontros e reencontros pode complementar a intenção de outrora. Posso dizer que, musicalmente, meu ano tá bem razoável.

vermelho - marcelo camelo

11.4.11

desencaixotaterapia

Quando choramos a morte de alguém, na verdade choramos nossa própria morte. Essa ideia é de Santo Agostinho. Ouvi-la hoje depois de uma tragédia como a que se abateu sobre aqueles pais, avós, irmãos, padrinhos e amigos faz muito sentido. Muitos morreram junto com seus pequenos, e sentir compaixão por essa gente toda, mesmo sem conhecer quaisquer deles, é um sinal de que a vida agitada, apressada e no vaivém insano da impessoalidade que atropela até mesmo o olho no olho não está de todo perdida.

Vai demorar pra esquecer daquela avó que lembrou com dor: tinha se despedido com um "Vá com Deus, Deus te acompanhe" sem saber que nunca poderia repetir o gesto à neta de 13 anos.

A dor dessa mulher me ajuda a entender e pôr panos quentes e macios na minha: afinal, a vó (diferente de 'avó', entende?) tão querida e tão saudosa cumpriu a ordem natural das coisas. Não passou pela tristeza de ver isso se inverter numa realidade embrutecida por homens.
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O massacre em Realengo aconteceu no "dia do jornalista". Na manhã seguinte, um jornal daqui de São Paulo estampava, em nada menos que meia página, a foto do rapaz doente (ou, pro béin-sensato governador fluminense, "animal") abandonado em sangue, cabeça perfurada --a cereja, em suma, num bolo de completo desvario. Dia de quê? Comemorar o quê? Obrigada, eu passo.
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É preciso se deixar morrer todos os dias.
Também faz todo o sentido, cara pálida.
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Abri ontem as últimas caixas da mudança (passa uma brisa por meu quarto agora, impressionante), depois de mais de mês de CEP novo. Segui os conselhos duma querida e, caso mude um dia novamente, prometi pra mim mesma o deadline máximo de uma semana pra me desfazer de todo o papelão. Não pode, não pode!

Voltei a ter minhas plantas - e gozado como são elas, e não a organização xuxuzinha do apê, que o transformaram de 'casa' em 'lar'. É a ordem natural daquilo que renasce, não? Também faz todo o sentido.
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mapa mundi - tiê e thiago pethit

22.3.11

terceira do singular

Criou um ramalhete de palavras/pensamentos dispersos, abotoou o casaco na noite escura/gelada e puxou da memória as saudades tão antigas e escondidas/esquecidas nos versos e rifles. A vida soava tão mais simples/absurdamente simples com 17 anos a menos, impressão? Hm, a checar.
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Se a insônia veio dividir aluguel, a preguiça de dirigir tá arrumando as malas. Sentiu de fato.
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whatever - oasis

17.3.11

bocadinhos

Pitangas caídas ao chão. Enormes e suculentas pitangas.
Damascos espalhados. Macios. Carnudos como nunca vi.
E um casal de idosos me ajudando a apanhá-los, ao longo de uma escadinha antiga e amarelada pelos raios do sol poente. Era uma espécie de Londrina, uma espécie de cenário de interior da tenra infância, familiar e ao mesmo tempo desconhecido do racional. Copiou?
Curioso como até em sonho mudam as estações.
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jealous guy – tiê e thiago pethit

3.3.11

cê vê?

E então o rapaz viu o assento "especial", azul-bebê, e sentou a filhota, pitica, que segurava a boneca no colo. Se ajoelhou e foi brincando durante o caminho. O longo caminho. Pediu que ela não jogasse o papel das bolinhas de chocolate no chão e foi atendido com um gracejo tão espontâneo que desarmou a seriedade dos que portavam semblantes e guarda-chuvas fechados – ah, esses alagamentos... – na tarde cinza de um pré-carnaval estranho que só vendo.

Nunca o caminho até a consolação me pareceu tão rápido. Acho que foi aquele amor sem troca, tão fecundo. Bonito, assim.
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There’s too much love – Belle and Sebastian

19.2.11

o sepapeficoa e eu

Quando se pensa ter noção do quanto ainda se pode viver - ou sonhar viver - a vida adiante, algumas emoções parecem ser eternas. E esses verbos de ligação, vou te dizer uma coisa, são uns danados.

O eterno coração na garganta ante cheiro, semblante parecido ou a lembrança mais forte de pessoas ou situações marcantes.

O eterno sentimento do sublime que se almeje eterno. A eterna busca pela simplicidade, cumplicidade, partilha, sem que isso resvale pro lugar-comum da esquálida rotina.

A eterna saudade. E a eterna vontade de esquecer que reforça, não entendi bem ainda, eternidade ou saudade. Dúvida eterna?

Aí você se lembra do tempo, verdadeiro senhor do eterno, e descobre - naturalmente - que o coração não é assim tão irracionalmente tolo na proporcionalidade: deixa de bater naquela estaca de desconforto temporário. Substitui, enfim, as reticências pelos pontos finais.

E então você olha pra mesa ao lado, vê passado e presente naqueles segundos-chave e nota os verbos que os ligam, sem adjetivos. Foram. São. E nem por isso a noção de que se tem muito ainda a viver - ou sonhar viver - a vida acabou: é que o caminho pode ser uma belezinha também na temporalidade indefinida.

Um alívio hoje, tanto (e bota tanto) tempo depois, ter indícios dessa certeza.
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you and I - wilco

15.2.11

o livro das perguntas

Semana passada eu assistia ao telejornal preferido quando, súbito, entraram as imagens do incêndio colorido que deixou tanta gente chorosa; outros tantos, inseguros: qual seria a dimensão de tudo aquilo? Haveria o festerê do carnaval carioca?

E então na semana passada eu me assustei (sim, não me desabituei a) com tanta gente caçoando, ironizando a situação daquelas comunidades que passaram meses trabalhando - muitos, em situação mesmo de emprego formal - pra perder, puxa vida, meros "bens materiais". Afinal, diferentemente dos que perderam as 900 vidas (número ainda não fechado) na região da serra fluminense, que era mesmo perder os frutos que objetivavam, numa análise rasa, uma... festa?

Quantas vidas foram resgatadas de escombros diferentes de lamaçais num trabalho desse, de comum-unidade? Não ouvi essa pergunta. Aliás, não ouvi essa pergunta dos mesmos que pregam - que coisa, menino - a solidariedade com o próximo. Solidariedade com aquilo com que eu simpatize, é isso? Não, obrigada. Essa, eu passo.
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"Em que lugar você coloca as pessoas na sua vida? Suas palavras as ajudam a se erguer, ou, encontrando-as feridas, ajudam a marcá-las um pouco mais?"

Essa pergunta ontem deixou tanta gente de cabeça baixa, semblante pensativo, olhares mudos, que não é difícil entender que o caminho, dentro e fora, é longo demais, espesso demais - espesso como lama. E tirar o iceberg resistente a esse meio requer mais que simpatia à própria ideia: requer respeito.

De repente, é como se eu quisesse um mundo feito de Lego. Não vai ter, né? Mas eu posso não subutilizar as minhas peças, não posso? Ah, posso.
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I'll try anything once - The Strokes

11.1.11

ponto transitável de alagamento

Os ouvidos acostumados aos fones estranharam quando a mensagem pelo alto-falante do metrô se estendeu além do habitual próxima-estação, dois pontos. Era pra todo mundo descer, que aquele trem seria recolhido. Pressa demais pra conjecturar. Os cinco lances de escada 'rolante' (ótima agilizadora pra gente como eu) em 10 segundos ainda vão me fazer voltar à corridela de rua. Tô no esquema, cedinho.

Atrás da linha amarela de segurança - imaginação voa longe sobre essa suposta "segurança" -, olhei pro lado pra ver quantos falsos desalojados, nesse dia de desabrigados de verdade, estavam ali em situação semelhante. Toda a calma pra constatar e aí sim conjecturar, fôlego recobrado: 10 pessoas naquela entrada de porta. Oito delas prestando atenção à tela minúscula do celular, melhor estilo cara-crachá, 9 com fone de ouvido. Alheias, aparentemente completamente alheias, a seus acompanhantes anônimos.

Lembrei do "Walking dead", o seriado fantástico (literalmente ou não) dos humanos que tentam encontrar a salvação contra os zumbis e achar o resto da civilização não "contaminada". Quem for mordido, adeus: é a morte certa pra ressuscitar, ávido por sangue e carne, como um "deles".

Pensei no presentinho que vou postar via Correio, depois de tantos anos, e na preguiça que estava me dando a ideia de escrever uma carta (tenho duas pra). Lembrei dos zumbizinhos da estação Paraíso e mudei de ideia: tenho no máximo só mais 5 minutos aqui - acho que é mais que suficiente pra se achar o CEP da pessoa querida.

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Pra sonhar - Marcelo Jeneci

7.1.11

com-pressa

Uma semana de folga do trabalho de um mês e o sono REM voltou a ter comigo, esse lindo. Algumas surpresas, é claro - nunca imaginava balbuciar "James Franco" pra um técnico de computador que (claro, só mesmo em sonho) batia à minha porta. E olha que nem sou tão fã assim do moço. Preferia um técnico Jude Law, mas ok-ok. O REM tava em greve, e eu tô deixando pequeninices do tipo de lado. Chega de ressalva boba, tio.

Quarta, primeiro dia útil da semana de três dias, esse REM me pregou uma peça. Não bastava descansar a cabeça (um pouco mais): ele tinha, a exemplo do que há anos faz com maestria, que me deixar pensativa um dia todo. Talvez dias, meses, até que o sal dissolva por completo. Alguns sonhos demoram a se revelar apenas sonhos - e às vezes podem ser mesmo sinais que o inconsciente de fato manda.

Só não queria, mesmo em sonho, ter ciência disso. E do porquê disso. Não é sonho, pô?
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Coisa linda não é sorrir - apenas. É fazer sorrir junto.
(Não tem REM passado que resista a essa certeza de três décadas)
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Lampejo do ócio balbuciativo: ukelele - é preciso.
Lampejo do ócio laborativo (conceito, ultimamente, super-que-sãper subjetivo): minha casa, minha vida.
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Dar-te-ei - Marcelo Jeneci


pense num álbum ensolarado, essa é a palavra. num encarte arrojado sem ser afetado ou pretensioso, esse é o sentido. diferente de tudo o que você já viu ou ouviu, esse foi o baque. poesia urbana, tátil e afetiva. simples e complexo.
ufa, passou o caminhão.

10.12.10

é verbo intransitivo

O gadjet na área de trabalho marca 25 graus, tempo bom, até uma lua estampa o quadradinho. Olho pela janela do 18º andar e uma névoa esconde alguns relâmpagos lá longe. A garoa, foi só a amiga perguntar e eu responder com um “ainda não”, agora me pega todo dia, na saída. Não consegui alterar o gadjet. Gosto de ver “Londrina” escrito nele.

Foram onze anos me acostumando com a idéia de ter me tornado, sabia-se lá por quanto tempo, cidadã paranaense. Muito melhor: londrinense. E cidadã no sentido mais completo da palavra – longe de ter praticado uma cidadania “perfeita” (se é que isso existe, tendo o ser humano a comandá-la) – creio que foi mesmo a terra vermelha quem me ensinou a ser.

No fim, acho que Londrina também acabou se acostumando a mim. Eu não imaginava.

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O gadjet marca a terra que fez as marcas mais profundas. O sábado em que parti com o carro cheio de tralha, costas cansadas de mudança e o coração leve e pesado deixou mais uma delas na lembrança. Como esquecer aquele por do sol dourando a plantação e ensaiando uma aquarela bonita, mas tão bonita, no céu tão azul? Lembro bem que, logo que cheguei, caloura irrestrita, o Calçadão da avenida Paraná (o do falecido petit-pavet) e essa imensidão azul me impressionaram na cidade dita planejada. Se “seta de carro era (é, na verdade) opcional”, a presteza do londrinense bateu de vez o martelo quando fiquei em dúvida sobre onde fincar a vida adulta. Não precisava de muito mais, pensei. Que engano.

“Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?” Eu precisava de muito mais, ainda. Por isso Londrina me ensinou também que o amor tem tantas faces, e que a vida as vai revelando aqui, ali, lá longe, cá dentro, no tempo certo. O tempo que eu não posso controlar, mas que transcende muito além dos ponteiros de um relógio.

Um amor que faz crescer e que cura. Que martela a alma e que sorri no fim de uma semana pesada, na sexta-feira das saudades e das contagens regressivas diárias. Que acalma, sossega e transforma tudo em lava vulcânica de novo – um amor desordenado e mesmo assim cheio de sentido. Amor que ensinou a entender, enfim, que a escolha profissional é pedaço tão importante da escolha de vida quanto a família que o garante seguro. Essa família sem o laço de sangue, porque nem precisa disso: existe e pronto. Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? As criaturas me ajudaram a encontrar essa resposta.

Sou uma multiplicadora de saudades. Londrina é a potência da equação.

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Nas tralhas de seis anos de rua Alagoas – uma de tantas ‘capitais’ londrinenses e inesquecíveis –, encontrei cartazes de algumas edições do Festival Internacional de Teatro, o Filo. Nunca viraram os pretensos quadros, porque a paixão pela ideia logo esmoreceu. Junto com aqueles canudos, mas não do festival, um deles trazia esta mensagem:

“Algún dia / Em cualquier parte / Indefectiblemente,

Has de encontrarte contigo mismo / Y solo de ti depende

Que sea la más amarga de tus horas / O tu mejor momento”

Um tal de “M. de Combi” que assina. Sabido, esse moço.

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Hoje é aniversário de Londrina. Não tem garoa que embace a gratidão que eu carrego.

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Forasteiro - Thiago Pethit

27.9.10

farol de neblina

Demorei alguns anos pra pedir a segunda via do meu diploma, extraviado numa besteira que nem vale a pena comentar, ou a trilha pra isso aqui seria a da turma do finado Mussum. R$ 95 pilas pra papel vegetal, 40 dias de espera, o fim de outra espera com o danado na mão. Bom, bom, bom.

De manhã, a certificação de que sou jornalista formada - se não, pro Ministério do Trabalho, serei jornalista profissional, sem deproma. De tarde, a certificação de que se pode ser o que quiser, se os olhos não estiverem fechados, os ouvidos tapados e a boca, convenientemente cerrada. Nunca tinha visto tão de perto, e numa situação tão banal, uma cena de abuso de autoridade. O poder da farda inebria, evapora a pele civil que há por debaixo dela, pra alguns, e atravessa os direitos do outro de uma forma desastrosa. Isso é triste de ver, mas açoita algo mais que a nuca daquele rapaz que tomou um choque e uma cacetada já em condição de dominação: o outro é apenas o caminho por onde eu posso e devo passar. Que merda, isso. Sorte e azar, eu e um amigo fotógrafo vimos e, antes que nosso queixo caísse um pouco mais, registramos tudo na memória e no cartão da nikkon. Ouvi um "deixa eu trabalhar, moça" do fardado e pedi a ele que, daquela forma, não precisava guardar a segurança de quem lhe confiava - e bancava, mensalmente, com benefícios - a missão. Às 4 da tarde, em centro "cívico", é assim que se vê um sujeito agir se o seu motorista atrasar (ufa) um pouquinho. À noite, fora desse espaço de civilidade, não quero imaginar o que rola, ou a minha noite vai ser longa no duelo de pensamentos. E não dos pensamentos de gente louca e doce com quem convivo.

No dia em que pedi de novo meu diploma, renovei, sem ele, a crença nas transformações que o ser humano pode fazer à medida em que não se deixe transformar em pedra. Hoje também foi dia da caridade - e "cáritas" vem de amor, solidariedade - e um dia de muita, mas muita neblina em Londrina. De manhã e à noite, ainda bem.
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florindo - mariana aydar

21.9.10

efeito colateral

Eita mundão velho sem porteira. Porteira pras não-meias-palavras, bem entendido. Mundão de eufemismos que, no raso, no raso, não soam mais que fajutices da falta de coragem, de tato ou simplesmente do raio que o parta. Que me importa; só acho mesmo, de verdade, uma besteira só, usando também um eufemismo. Vamos a elas.

Por exemplo: o sujeito se julga "sincero demais" (ou pretende sê-lo, mas também não consegue). Não é sincero - é grosso, insensível à opinião ou ao sentimento alheio, o umbigo dele é o que importa. Resumindo: "sou foda e o mundo que se vire". Encaixa-se a expressão, ocasionalmente, no igualmente desprezível "o que eu tenho de falar, falo na cara". Adoro gente corajosa assim - esses costumam ser os primeiros a encontrar outros corajosos no caminho, com ou sem um espelhinho na mão.

"Não querendo me intrometer, mas já me intrometendo..." - claro que queria se intrometer. Se não, que sentido teria a sua vida, não é mesmo? Você vive dos restos que caem das histórias alheias. Quem sabe compõe a sua, desses retalhos, algum dia.

"Esses preços estão pra hora da morte" (que coisa antiga...) - então, pensando bem literalmente nas palavras, não reclame. Afinal, talvez você nem tenha de pagar por eles.

"Sou muito legal, mas quando pisam o meu calo..." - na verdade eu sou bacana quando convém. Quando você me sacanear, me encher o saco ou quando eu me enjoar de você, dou o chega-pra-lá e te mostro, de verdade, quem eu sou.

"Eu podia estar matando, eu podia estar roubando..." - mas estou fazendo algo de pouca ou nenhuma relevância a mim ou ao meu próximo, neste exato momento, a menos que esteja trabalhando pra pagar (por exemplo) o licenciamento obrigatório que o Detran, gentilmente, me lembrou esta semana.

"Menos é mais" - mentira. Se você ganhasse aquela Mega de R$ 90 e tantos milhões, não faria a caridade pseudo-reprimida desse eufemismo. Se ganhar e mudar de ideia, porém, já sabe. Levo você à agência BB do Calçadão em Londrina com a prontidão de um candidato numa comunidade carente e indecisa.

"Ei, como que você tá?" - não, seu tolo, não responda a sério. Foi só uma pergunta retórica. Poucos vão te perguntar isso fora desse contexto de intenções tão floreadas.
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Acho que tomei chá de realidade demais. Parei de usar açúcar faz tempo (minha saúde agradece a olhos vistos), mas não deixo que tornem o conteúdo do chá mais amargo do que possa ser (ou do que é, em ocasiões em que adoraria ter os eufemismos à mão). Afinal, gente sincera demais, legal até onde lhe convir e com ouvidos moucos e ombros frouxos pras respostas que não as suas próprias não me interessa.
Aí, sim, menos é mais.
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E viva a Primavera - como sempre digo, - minha estação favorita. Sem meias palavras, rica demais a carga simbólica dela.
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left and right in the dark - julian casablancas

19.9.10

ah, devia

Primeiro eu vi uma capa de livro dela, anos atrás, e o nome me chamou a atenção. Aí li um poema, um conto, um conto poético e, esses dias, tive a sorte de a ouvir falar da literatura como aqueles "pequenos entalhes na compreensão da vida". Segue Marina Colasanti, essa respeitável senhora que não tem blog porque não se acha "no direito de despejar sabedoria por aí", que há quatro décadas é casada com seu querido Affonso Romano de Sant'Anna, escritor e poeta - e de quem fala com um brilho nos olhos bonito que só -, e que moveu, como disse aos meus queridos do facebook - agora digo a meus quatro leitores do Bloco -, mais uma pocinha d'água parada. Creio que ela teve essa certeza também, ao me devolver o livro com o agradecimento pelo carinho, quando, na verdade, eu é que estava ali pra agradecer.
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Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)
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N - Nando Reis e Os Infernais
pra lua amarelada, na sexta passada, ao sol que me espera, amanhã - adoro essas trilhas de estrada.

22.8.10

toda fé tem um andor

A vida é afeto e desafeto. Apego e desapego.
Distração e diligência. Pressa e educação.
Definições e indefinições. E escudos nos quais elas se transformam, sempre que conveniente.
"É um contentamento descontente / é dor que desatina sem doer", não, gajo?

É uma ansiedade por um futuro feliz, com o passado restrito ao particípio e o presente no indicativo do fluxo a se tomar. É um exercício frequente pra que essa ordem seja seguida, já que raro o é. Pode dar certo correndo muito, muito, até o pensamento zerar e voltar a partir do ponto de agora. O ponto presente.

No fluxo desse rio há as margens nossas de cada dia. Maria, a faxineira da academia que me recebe com um sorriso e um abraço, é um pedacinho dessa margem. As pequeninhas com quem brinquei de esconde-esconde ontem (céus, fazia anos...), naquele meio já tão familiar, lembraram que existem bóias com águas agitadas e com águas calmas. E o melhor: existe gente disposta a jogar as bóias.

A vida é movimento. É encanto e desencanto, é pôr-do-sol e é marola. E justamente por ser um ciclo, mas não sentença final, é que o dia que amanhece na sequência tem o dom de energizar para o recomeço e fazer ver quantos precisam da gente, e vice-versa, e o quanto esses quantos são necessários pros contrapontos não deixarem a água parar.

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água doce - roberta sá e trio madeira brasil

11.8.10

random off

"É muito feliz quem é inacabado".
Fez todo sentido ouvir isso dele pra logo em seguida compreender, em doses homeopáticas, que a escritora que "salva gente todo dia" era uma náufraga escrevendo pra outros náufragos. Tais como ele próprio, como eu, tais como você.

Fez o sentido necessário pra morder o canto dos lábios, numa coisa de entendimento recíproco, depois dele outro dizer que escreve com muita vontade de desafogar alguma coisa - nem que fosse pra não correr no automático e não se entrelaçar na preguiça nefasta em que aquela comodidade toda, nesse mundão de neutralidades, lhe anestesiaria. "A gente precisa mais das metáforas", emendou o colega. Precisamos. Nem que seja a que, sucintamente, compare a culpa a uma espécie de "fiador da memória", tão cara e agora já tão ternamente guardada num espaço que a náufraga sabe bem o quanto custa.
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O controle remoto do meu som já está "correndo no automático": até que eu resolva trocar as pilhas dele ou deduzir o que o bichinho quer, definiu que não passa mais as faixas nem altera o volume. Só liga e desliga. Inacabado assim.
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ready to start - arcade fire

6.8.10

calefação

Tem que pôr um anos quentes, sabe?
Foi essa a dica do respeitável senhor.
Como tanta coisa nessa vida (pode) demanda(r) interpretação, a minha, naquele instante, fez prevalecer a repulsa.

Panos quentes em si própria.
Foi essa a devolução alheia à mesma dica.
Hoje fiz uso literal do conselho pras dores físicas, consequência do treino em viver uma vida deixada de lado. Nem precisou de interpretação tão subjetiva em nível de ser humano enquanto gente: a bolsa (mais prática que pano) de água quente ajuda a desfazer aqueles indesejáveis nós. E, por alguns instantes, faz da baixa temperatura lá fora, e das estalactites no nariz, questões tão secundárias.
Bolsa, minha gente. Sem gelo.
Aderi e não largo mais. Aliás, já não era sem tempo.
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Água da minha sede - Roberta Sá e Trio Madeira Brasil

1.8.10

trilha

Não sei se é a proximidade dos 30 anos – e sim, tem datas que me marcam até demais – ou o quê, mas tenho pensado mais na minha vida do que vinha pensando. Do que gostaria de pensar. Do que teria que já ter pensado.

Esses dias eu tinha um fusca laranja-escuro com portas cinzas; um espetáculo, o danado. De repente eu colocava uma turma pra ser levada de um lado a outro daquela cidade que não era Londrina, e aquelas pessoas que me eram próximas, mas não eram os meus amigos. Os amigos das sextas-feiras terapêuticas (pra todos), os amigos do durante-a-semana e do há muito sem se ver e sem se falar, mas firmes lá no latifúndio. Atemporalidade linda, essa.

Aí eu vi que, além da tonalidade bastante discreta, meu fusca tinha também (Smallville, te cuida) uma capa. Parei um instante e vi que a tal capa tinha um furo quase na borda. O fusca continuou rodando, com capa furada, mesmo aquilo me deixando incomodadinha.

Identificar o furo e viver com ele não impede o trânsito, mas haja função quando a tentativa é arranjar linha pra consertá-lo. Não fecha. Não dá pra esquecer que ele está lá, não tem como trocar a droga da capa, saco.
Vou comprar uma bicicleta. Ajuda?
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"Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce". Li isso num livro da Lya Luft (eu, que não me imaginava lendo Lya Luft, bebendo Ades ou comendo queijo branco) e concluí que a bike não resolve.
Ouvi que só fica pra escutar até o fim aquele que verdadeiramente ouviu o som do coração, da alma da gente, e pensei que até que a capa está inteirinha, com aquele furo. Afinal, é um dos primeiros, apenas.

Deixar-se lapidar - oh, céus - é preciso.
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One time too many - Phoenix