A caminho do médico, o taxista tem a conversa entrecortada pelos bipes do aplicativo. Era um canto de azulão - e ele arregalou os olhos quando o identifiquei. "Meu avô era criador. Tinha canário da terra, canário do reino, curió, mas o azulão do bico chato era o xodó", expliquei. "Que bom então que serviu pra você se lembrar do seu avô", ele me disse. Lembrei do rádio com CD de passarinho que Sebastião colocava pra treinar as aves, pacientemente, e então Araújo e eu rimos. Ele, paraibano e sertanejo de Cajazeiras, fez seu próprio viveiro há duas décadas em Guarulhos, para a família e para os outros passarinhos que criava. Acredito que essa deva ser a proposta dos afetos verdadeiros: evocá-los em momentos singelos e, ainda que a saudade que os envolva seja imensa, profunda, há que se conseguir extrair um sorriso. Às vezes cai um cisco junto, é inevitável, mas a melodia segue, de azulão, curió, buzina de carro, quero-quero na praia, bem-te-vi na praça perto de casa. Ainda me faz mais gosto o canto do azulão. * "Escrever ajuda a organizar o lado de dentro", ouvi esses dias. "E os afetos não têm data de validade, fique tranquila". Vamo que vamo com a tarefa. *
- "Você criou uma prisão a que poucos têm acesso".
- "Não há distância física para os sentimentos".
- "O inconsciente da gente é como um porão, que, muitas vezes, é escuro e está bagunçado. Você quer entrar nele? Está disposta a arrumá-lo?"
*
Era bem mais simples quando eu comprava sorvete de flocos perto da casa do meu avô, ou quando chupava jabuticaba no pé, na chácara da tia-avó, sem medo do tombo seguinte.
*
Desculpe por te subestimar, infância querida.
*
29.10.14
Escuto aquela música, tão nova e já tão parte da minha vida, e lembro das flores em contraste com o céu megalomaniacamente azul do Rio. São flores cor de rosa, não exatamente ipês, mas não sei o nome delas, desculpe.
Adornam as copas das árvores (como eu gosto de árvores, meu Deus), tiram a seriedade dos prédios e sorriem -- qualquer que seja a ruga de preocupação, desafio o sujeito a não desfazer ao menos uma delas diante dessa que considero uma pequena ou enorme epifania, à sua escolha.
Logo vêm as imagens de pôr-do-sol colecionadas não ao largo dos últimos 21 dias, mas de uma vida -- algumas tomadas mentais são mesmo inesquecíveis. Abro uma exceção pra lua maravilhosa indicada pelo taxista, extasiado pela beleza da cidade dele e por outro contraste: o da bola gigante com o Cristo iluminado.
Escuto aquela música, tão nova e já definitivamente tão parte da minha vida, e lembro das nuvens sob as asas do avião -- foram tantas e tantos esses dias, perdi a conta, mas é como se uma fase importante da vida finalmente tivesse chegado. Costas cansadas (quantas horas de sono são necessárias, afinal?), olhos desanuviados: um dia percebi essas nuvens como algo que simplesmente encobrem o sol, mudam a perspectiva por um instante, mas exigem paciência do caboclo para que, uma vez dispersas, ele consiga finalmente vislumbrar novamente a bola maravilhosa de luz que paira sobre sua cabeça.
Hoje eu via uma reportagem
sobre algo que me lembrou das nossas conversas de domingo e, não teve jeito,
fui trabalhar com os olhos inchados.
Queria que esse espinho me
fosse mais imperceptível, vô. Ou que, ao menos, a saudade não fosse exatamente
uma coisa chata de doída. Não sei quem inventou que ela pode ser algo bom
–talvez, imagino, à medida em que se tem saudade apenas de quem amamos ou
queremos bem. Isso, pelo menos, faz todo o sentido.
“Olha só, o vô tava pensando
em você agora. Tá boa, fia?” Como não ter saudade disso, vô? Tem expressão de
carinho mais genuína, mais simples?
Como se preenchem esses
vazios? Como se lembrar disso só com um sorriso no rosto, sem denunciar que a
lembrança abarca, na realidade, outra sorte de sentimentos?
Acompanha minhas conquistas,
Sebastião? Vê meus apuros? Torce, reza, zela, compreende minhas inconstâncias
humanas? Ainda ilumina por onde passa?
Tanta pergunta, não, vô. É que tempo
é algo absolutamente relativo quando se ama (o senhor bem sabe).
A pauta era uma reintegração de posse. Condomínio de apartamentos de 45 metros quadrados, inacabados, num lugar que, com o taxista nos deixando apavorados com velocidade e alguns abusos pra que fôssemos (d)os primeiros, levamos ainda uns bons 60 minutos pra chegar.
O cheiro de bombas de gás -- bombas lançadas também de um helicóptero policial, veja que coisa, minino --, gente chorando, gente dizendo que havia "crianças mortas". Gente jogando pedras em policiais. Policiais devolvendo com mais bombas. Xingamentos mútuos e feios --tive um upgrade momentâneo de repertório, mas, ufa, já esqueci.
De repente, horas mais tarde, notei que aquela fileira de homens sisudos e de fardas grossas, naquele calor absurdo, começavam a querer desmoronar --de sono. Um deles, de pé no fim de uma fila de uns 30, cochilava, balançava levemente pra frente e 'acordava' novamente. Outros dois cochilavam sentados na calçada suja enquanto os companheiros tapavam, desastradamente, a visão que se tinha da cena.
Dias depois, a pauta de uma manifestação no centro. Difícil definir o turbilhão de emoções, algumas muito ruins, nocivas, de ver pessoas sendo arrastadas pelo colarinho simplesmente por serem pedra no caminho. Muito, muito difícil ouvir aquele cidadão bem vestido, uns 40 anos, e uns moleques mascarados, tênis Asics e Nike nos pés, gritando "Não vai ter soldo!" à faixa gigante que mais parecia um desfile militar fora de época. Desfile gigante, por sinal, de pessoas que tiveram a folga limada para estar ali.
De repente, horas mais tarde, o amigo mostrou entre as fotos a de um coldre vazio, na cintura milica, ao lado de um crucifixo, de madeira, pra fora do bolso.
Afinal, ser humano mudou pra estar humano e não nos avisaram? Ou avisaram, mas ignoramos?
21.10.13
Sonhei com você e li seus e-mails antigos. Surpreendi-me
com as feridas que o tempo cicatriza e com as nervuras que ele faz, por outro
lado, sobre a terra que agora está seca. Acho que a surpresa maior foi por
descobrir que aquela pessoa de outrora morri. Morremos.
“Às vezes, não sempre, acontece” de a moça ter esses
devaneios. Aí ela olha pros lados, pensa no quão estúpida é a palavra humana e
segue limpando o caminho. O caminho, aliás, como eu disse, é de terra.
*
Muita poeira por aqui, mas a lembrança do velho blog é
uma coisa assim: uma lembrança. Acho que sou a única leitora dele e considero
isso muito vantajoso, ainda que possa estar equivocada, pra um lado e pro
outro.
2013 também deixa nervuras na minha antiga terra úmida.
Dona Leda. Funcionária pública, 51 anos, olhar em que se confundem resignação e impotência. É como se, de longe, alguém acenasse a ela permanentemente, dizendo: "Desta vez, não".
Perdeu o filho para as grades do Estado há sete anos. Recebeu-o de volta quando, por ordem de um juiz, ele tentou cursar Letras na universidade federal. Mudou o juiz, mudou a sorte do filho. Cana. Dona Leda dá o que os jornalistas chamam de "nariz de cera" para explicar que a pena é por homicídio. Pela conversa inicial, ela quase convence o interlocutor de que agressão fora o delito para os 12 anos da condenação.
O filho de dona Leda é um dos 69 presos contra os quais é investigada tortura em uma penitenciária de segurança máxima de Santa Catarina. No Estado das belas praias e do "terceiro metro quadrado mais caro do Brasil", como dizem três em cada dois taxistas, o filho de 33 anos da funcionária pública está dentro de uma unidade que não faz mais gênero ao corregedor-geral de Justiça, um japonês de fala grave e pausada: "É o presídio em que mais temos denúncias de maus tratos".
Não há desses casos em Jurerê, cercada de seguranças e champanhe nas taças à beira mar, fato.
Do lado de fora do muro vigiado também por um joão-de-barro, dona Leda manda a dona do quiosque anotar a coca, o salgadinho e a água de outras mães e mulheres na conta dela própria. "Tá errado, Leda, não pode", alerta a dona do caixa.
Dona Leda olha o relógio, o sol forte, pensa nas duas semanas sem ver o filho e sussurra: "É uma angústia de viver muito grande, moça. Lá no fundo do peito, é uma impotência que não sei dimensionar".
Ninguém sabe dimensionar a dor de dona Leda. Não tem lide essa dor, tem só um eterno nariz de cera resistente ao tempo.
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Escrevi esse texto mês passado numa viagem de trabalho. E durante uma longa espera, sem comida e sob sol forte, para a entrevista que trataria de... direitos humanos. (ok, ok)
Semana passada, a espera pela luz verde do semáforo me pareceu mais longa que a de São Pedro de Alcântara. Era num cruzamento muito familiar de Londrina, por onde já passaram sonhos e ansiedades, mas que, naquele instante, me brecou o ímpeto das lembranças fraternas quando a senhorinha de cabelos muito brancos e sorriso no rosto enrugadinho me ofereceu panos de prato pintados à mão.
"É uma impotência que não sei dimensionar", dona Leda.
*
Era recorrente a imagem da viagem perdida, fosse o meio que fosse. "Qual a sensação advinda?" Dificilmente o sonho era nítido o suficiente pra eu chegar a uma resposta capaz de eu, mesma, me convencer. No começo a recorrência incomodava, depois, passei a achar aquilo simplesmente curioso.
De uns tempos pra cá, volta e meia aparece o entardecer numa rota que já chega a ser, pelo menos pro inconsciente, praticamente 'familiar'. Mas, nesse caso, o alaranjado da estrada de chão batido (é essa imagem bem nítida que eu guardo) dá um conforto grande que sepulta da lembrança sequer a necessidade de perguntas.
Necessidade sepultada como o espinho -- pequeno, sorrateiro, indolor --aninhado esses dias no peito, pouco abaixo do pescoço. Não era um sonho, mas o fruto de uma colheita desastrada no pé de limão do avô. Foi extraído com tão pouca balbúrdia --e sim, sou involuntariamente bem fresca com coisas do tipo --que, por si só, aquilo deveria ser O alívio.
Extraí o espinho.
*
"Comporte-se como se seu comportamento fosse repetido indefinidas vezes"; "ato repetido vira hábito, e o hábito vira destino"; "o padrão de comportamento depende, sim, do padrão de pensamento"; "(...) e você estaria condenado a viver para sempre a vida que escolheu viver. Qual seria seu sentimento diante desse destino?"; "(...) mais responsabilidade por aquilo que fazemos".
Resolvi espetar esses outros espinhos na carne depois de uma leitura proveitosa e com a qual, meodeos, eu precisava há tempos me deparar. Só então reparei no tamanho da minha displicência com o que de mais sagrado eu poderia preservar na tal estrada cor de laranja.
*
10.7.12
Uma sensação estranha de que o ano se resumiu a uns poucos meses, poucas semanas, quando na verdade se passou na maior parte, e o acúmulo de informações e de cansaço o extrapolam.
Sensação de que uns pares de anos não são nada e ao mesmo tempo são muita coisa. De que décadas, no ranger dos dentes, não passam de poeira a ser limpa. Ou de que horas, dias, semanas e meses se solidificam espaçada e incomodamente quando o belo que os representa --ainda que, fato, apenas numa fotografia --deixa que os olhos se percam no tempo.
Esses olhos são teimosos demais, meu Deus.
Não sei, mas viver e pensar e agir com simplicidade requerem uma sabedoria que ainda não descobri. Quem sabe espanando a minha própria poeira, consiga encontrar algo numa superfície de textura que hoje me é indefinida; a ver.
O curioso é que tem feito dias de muito sol e pouca névoa.
O curioso é que eu insista em me surpreender.
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"Dizem que na vida a gente se acostuma com tudo; não é verdade. Anos já se passaram e eu não me acostumei. Ninguém esquece uma saudade, nem substitui um amor."
Confesso: tem uns diálogos de novela que me tiram do sério. Quando tiram assim, tanto melhor, porque me levam a refletir, de fato, sobre caminhos que a vida segue, persegue e dos quais desvia. Não preciso buscar isso necessariamente numa homilia ou num livro, pode ser num meio "de massa", mesmo. Alguns diálogos --a maioria, nesses de novela --entram por um ouvido, provocam, tamanha a chacota ao senso de realidade, mas logo se dissipam. Não ocupam espaço no hd afetivo.
Esse aí foi um trecho de 'diário' que uma personagem escreveu a outra, sua irmã, durante as transformações do lado de fora de um quarto de hospital. Uma das jovens, em coma durante anos, não viu a filha crescer e inaugurar as primeiras "primeiras ações" de vida --os primeiros passos, a primeira festinha junina, o primeiro dodói. Mas a irmã-e-melhor-amiga registrou tudo no blog, lido em meio aos flashbacks da pequeninha aprontando lindezas.
Quando ouvi isso, lembrei na hora de um texto da Marina Colasanti já postado aqui. A gente se acostuma, mas não devia. Mas qual a saída pro não se acostumar: enganar a lembrança? Modificar a memória --que não precisa de esforço pra bater à porta --com subterfúgios diversos?
Não acho que a gente se acostume. O que a gente faz é deixar as saudades adormecidas e as dosar de uma maneira a se levar a vida adiante, sem olhar muito pra trás porque a estrada carece de atenção, sempre. E uma atenção vigilante, sóbria. Porque fixar os olhos num ponto e fingi-la, ao menos pra mim, é algo que nem nas aulas de yoga costuma dar certo.
As sensações e pensamentos sobre o diálogo das duas irmãs vestem como uma luva macia, mas difícil de encaixe perfeito em todos os dedos, num dia como hoje. "Anos já se passaram" e eu não me acostumei com a falta do abraço e do beijo na avó querida que foi a segunda mãe, tão presente, e que completaria anos neste dia 6. "Ninguém esquece uma saudade", nem substitui um amor --não mesmo.
E no caso de dona Benvinda, que chamava os netos de "meu passarinho" de um jeito tão cândido, a saudade fica mantida em cativeiro ao passo que o amor vira o alicerce pros outros amores que vão agregando os retalhos e compondo a colcha. Sem substituições: só com pequenas e grandes emendas que são a analgesia às pedras que formam também uma crosta de pés resistentes.Ou os nós que tornem o bambu mais forte.
Acredito que esse referido é verdade, passarinho.
................................. don't know what save you from - kings of convenience
Hoje não há muito o que escrever, só o que compartilhar.
O título do texto que segue é o mesmo da compilação de crônicas do Drummond publicadas na década de 70 no Jornal do Brasil. Notei que várias das citações usadas nas redes sociais atribuídas ao poeta são trechos editados --pra usar um eufemismo -- de textos desse livro. Recomendo a leitura. Afinal, ele mesmo avisou, "a crônica deveria propiciar, como os dias lindos, que cada um deixasse de lado, mesmo por instantes, o peso dos acontecimentos mundiais, trágicos, esmagadores, para degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz."
Quem sou eu pra discordar?
* Os dias lindos
Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: "Os dias ficaram lindos."
Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos.
E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. A temperatura ficou amena, conduzindo à revisão do vestuário. Protege-se um tudo-nada o corpo, que vivia por aí exposto e suado, bufando contra os excessos da natureza. Sob esse mínimo de agasalho, a pele contente recebe a visita dos dias lindos.
A cor. Redescobrimos o azul correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço. O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fabricadas. A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar os vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.
O ar. Ficou mais leve, ou nós é que nos tornamos menos pesadões, movendo-nos com desembaraço, quando, antes, andar era uma tarefa dividida entre o sacrifício e o tédio? Tornou-se quase voluptuoso andar pelo gosto de andar, captando os sinais inconfundíveis da presença dos dias lindos.
Foi certamente num dia como estes que Cecília Meireles escreveu: "A doçura maior da vida flui na luz do sol, quando se está em silêncio. Até os urubus são belos, no largo círculo dos dias sossegados". Porque a primeira conseqüência da combinação de azul e leveza de ar é o sossego que baixa sobre nosso estoque de problemas. Eles não deixam de existir. Mas fica mais fácil carregá-los.
Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão. Será egoísmo curti-los na moita, deixando de comentar com os amigos e até com desconhecidos que por acaso ainda não perceberam o raro presente de abril: "Repare como o dia está lindo". Não precisa botar ênfase na exclamação. Pode até fazê-la baixinho, como quem transmite boato e não deseja comprometer-se com a segurança nacional. Mesmo assim, a afirmação pega. Não só o dia fica mais lindo, como também o ouvinte, quem sabe se distraído ou de lenta percepção sensorial, ganha a chance de descobri-lo igualmente. Descobre e passa adiante a informação.
A reação em cadeia pode contribuir para amenizar um tanto o que eu chamo de desconcerto do mundo. De onde se conclui: deixar de lado, mesmo por instantes, o peso dos acontecimentos mundiais trágicos, esmagadores, para degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz, é um passo dado para reduzir o desconcerto, na medida em que a boa disposição de espírito de cada um pode servir de prefácio, ou rascunho de prefácio, à pacificação, ou relativa pacificação, dos povos e seus dominadores. Em vez de alienação, portanto, o prazer dos dias lindos é terapia indireta.
Pode ser que o desconhecido lhe responda com um palavrão, desses em moda na sociedade mais fina. Não faz mal. Não se ofenda. Ele descarregou sobre a sua observação amical o azedume que ameaçava corroê-lo no íntimo. Livre desse fel, talvez se habilite a olhar também para o céu e a descobrir mesmo certa beleza esvoaçante no urubu. De qualquer modo foi avisado. Já sabe o que estava perdendo: a consciência de que certos dias de abril e maio são mais lindos do que os outros dias em geral, e nos integram num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente. (Carlos Drummond de Andrade)
Os portais noticiam que a cúpula da emissora, numa reunião em Paris (sintomático), decide tirar o "humorista" da bancada do programa de TV que já teve o frescor de algo realmente novo e inovador. Repare como é fácil pensar que ambos são conceitos sinônimos. Pra mim, nunca foram.
O sujeito pode achar graça e fazer piada com as mulheres (as "feias", pelo menos) vítimas de estupro. Pode sugerir canibalismo ou pedofilia com o filho da cantora que é casada com o amigão do ex-astro de futebol. Pode desligar o telefone do repórter com um "eu só falo sobre o artigo (elogioso) do NY Times, é sobre isso?" (era sobre um inquérito, caro, que pena) ou sei lá, pode achar que os ataques contra casais gays na avenida Paulista são coisa de gente bipolar --afinal, não há limites pra piada que gente como ele se propõe a fazer, não é?
Dias atrás, numa conversa que --não me lembro como --enveredou para religião, a pessoa que falava comigo insistia no total livre-arbítrio do homem sobre o destino, sobre as "fortunas guardadas por séculos" pela Igreja católica e sobre o quão pedófilos ou tarados podem ser os padres de um modo geral. Graças a sabe a quê? Ao celibato.
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Você considerar que um humorista seja racista, preconceituoso ou apologista de atitudes criminosas (o que, pela lei, o torna tão criminoso quanto) logo faz levantar as armas dos que condenam a "patrulha ideológica", ou a "censura" --e gente que sequer ouviu, algum dia, um relato de quem de fato sofreu não só com a censura propriamente dita, mas com outras agruras mais doloridas de um regime ditatorial.
Dizer que uma religião é regida por homens e alimentada por algo tão subjetivo quanto a fé de cada um levanta um olhar de pena. Sugerir que o respeito entre os crentes e os incrédulos seria uma saída para uma pretensa (e ingênua, será?) harmonia, em vez de uma parte tentar convencer a outra com críticas pouco construtivas, soa como sintoma de idiotice. "Questão de convencer ou de questionar?", recebi. Tem pergunta que não carece mesmo de resposta.
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Talvez eu seja careta demais, simples demais nos meus pontos de vista ou, vai saber, ainda muito inconsistente neles pra afirmar, por A+B=C, por que confio demais ou rechaço por completo todos eles. Sabe aquela história da construção permanente? Minha crença é nisso. A vida é rica demais pra oferecer uma resposta pronta ou cheia de argumentos que comprovem uma tese única sobre cada aspecto dela.
E mesmo num tempo de liberdade como se propaga que é esse nosso, prefiro pensar que mesmo os tijolos de quem impõe a cor e a marca da argamassa são necessários e motivos pra eu agradecer. Aí sim é que nem precisa me convencer.
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"Você já se adaptou?", pergunta em 11 de cada 10 oportunidades fora de SP. "Está feliz?", perguntam os queridos, mas não exatamente íntimos.
Não sei por que, esses dias encasquetei (#vem31feelings) com isso. Adaptação, na psicanálise, é algo como a ação do sujeito que modifica o meio e cria o equilíbrio do próprio ego. Não sei se um "sim, certamente" caberia dentro dessa interpretação: porque não sei se me adaptei à cidade ou se ela que me acolheu --com toda a aspereza que desponta pra quem insiste em ver nela só isso --me devolvendo, desafiadora, o velho "decifra-me ou te devoro".
Duas frases que me chamaram muito a atenção nesses 10 meses de vida paulistana. Paulista. Uma é a pichação num bar da Consolação; pichação velha, segundo os caros daqui. "É pouco hoje pra tanto ontem", já perto da Paulista, justamente o reduto mais repleto de hojes diversos na cena da capital. Sotaques, tipos, trejeitos, gírias, tudo misturado, diferente e cheio de sentido na massa que pára o trânsito dos carros quando resolve atravessar em bando cada esquina.
Imagino --na verdade, eu só tento imaginar --o beco em que deveria estar o pichador, ou quem bolou a frase, pra achar mesmo que o passado poderia tomar um espaço tão grande em presente e futuro. "O presente é tão grande / não nos afastemos". O que Drummond interpretaria? "Não nos afastemos muito / vamos de mãos dadas". Ok, Drummond, você venceu.
....................... "Não existe amor em SP", canta o rapper que já assinou "Criolo Doido", hoje só Criolo. Essa outra frase, nome de música, na verdade mais me desafia a achar um contraponto do que necessariamente me causa estranheza. "Não precisar morrer pra ver Deus / não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você", continua o rap melódico que compara a cidade a um buquê de flores mortas num belo arranjo.
Não sei se ele canta a São Paulo do trânsito desesperador (minhas mãos e pés que o digam, pois sofrem de nervoso) e da sujeira (quanta sujeira, quanta); a São Paulo das filas intermináveis pras tarefas mais simples ou pras mais pitorescas; a São Paulo das chuuu(...)uuvas de janeiro e do tempo que pode demandar manga curta ao meio dia e pashimina no pescoço, horas mais tarde. A São Paulo que vê filas no parque --verdadeiras filas indianas de bikes, triciclos e de gente correndo atrás de saúde (eu acho) --; que tem o transporte público caro (claro, o nosso é também o mais caro "do Brasil") e só eficiente porque, de carro, se levariam horas a mais. Só por isso.
Aí eu vejo de manhã, quando muita gente ainda está mal humorada pelo sono que sobra, desconhecidos dizendo um "pode segurar, por favor" ao oferecer o próprio braço como barra pra que a pessoa ao lado não surfe a esmo, entregue ao desequilíbrio, no vagão inundado por aquele mar humano.
Aí eu me esqueço do bilhete do transporte no dia chuvoso e conto as moedas, insuficientes --o cartão de débito não garante segurança ilimitada, sabe --, sob o olhar da senhorinha japonesa que, sei lá se ela se lembra da cara de tantos, mas fica ali na catraca todo dia. "Quanto você tem aí?" "R$ 2,25". Ela olha pro senhorzão da bilheteria blindada e diz um "pode vender. A diferença fica por minha conta" que salvou, se ela soubesse, mais que uma manhã de trabalho sem (muito) atraso. Salvou uma certeza, com broto já cheio de folhas novas, de que a letra do rapper está tão na superfície quanto um "você se adaptou?"
.......................
Gosto de conversar com os taxistas. A diversidade de gente que eles transportam, tenho pra mim, os torna profissionais multidisciplinares: cada um tem um lado meio psicólogo, meio roteirista de novela e de documentário, meio antropólogo, meio cientista político, meio policial, meio animador de platéia, meio agente da CET, meio meteorologista, meio ombudsman do Datena ou dos "inimigos" do Datena. Alguns são meio escrituários de repartição pública, é verdade. Mas a imensa maioria tem pedaços de história de vida que quer passar adiante, ou quer receber a de quem está ali, ainda que temporariamente.
Ontem, o tiozão me explicou que a filha, recentemente falecida, tinha dito pouco antes pra ele que não sabia como fazer com que a filhota de dez anos não gastasse tanto, e sim, economizasse. Ele garantiu que tinha a solução: prometeria à neta que lhe daria o mesmo valor economizado se, ao cabo de cada mês, ela tivesse alguma quantia nos bolsos. Se a menina tivesse R$ 30 e os economizasse, portanto, teria R$ 60 na mão dali um tempo. Por essa, nem dona Armênia esperava. Estoicismo na chon, pensei.
Ele contou a história com umas gargalhadas sinceras, citando as elucubrações da neta pra deixar de lado, por exemplo, o lanche do McDonald's. "É um bom laboratório, não? Porque deve sair bem mais em conta pro senhor, no final", sugeri. "É mais em conta sim. Mas não é bem um laboratório: eu faço isso há anos com meu filho e é um sucesso". Nova gargalhada dele --acho que da própria esperteza, deve ter pensado.
E então, no meio hoje daquela fila de bikes e patins ansiosos pra passar, e, logo em seguida, na brisa que o chafariz gigante do parque proporcionou, eu tive uma grata sensação de que São Paulo tem muito desse tiozão do táxi. Ou não haveria tanto contraponto pra tanta frase pronta sobre esta terra, acredito.
A perda do bonde. Do ônibus. Do "avião de linha" (porque, afinal, o avião é - e não é - meu). É recorrente essa figura nos meus sonhos, não sei nem há quantos anos já. Pouco, mas pouquíssimo recorrente é aquela coisa de você acordar, se ligar que estava no meio de um sonho e decidir: vai voltar de onde parou, assim, como se a consciência fosse mera espectadora de um mundo paralelo sob o qual o controle é facultativo.
O curioso de acontecer isso hoje pela quarta vez (em mais de 30 anos) foi perceber que cinco minutos de sonho - talvez os mais afobados das minhas eternas perdas de viagem - equivaleram a exata uma hora de vida; o rádio-relógio judia, mas não mente. Na real, isso não tem importância alguma: me basta o alívio de acordar dessa vez (após muitas-e-espetaculares horas de sono) com a dúvida de ter perdido ou não a bendita condução. Porque, dessa vez, tinha duas razões de vida segurando o ônibus pra mim na rodoviária.
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Na outra ponta do meu sonho, talvez nas horas bem anteriores, encontrei novamente uma praia onde mãe e filho me acompanhavam na vacina contra a gripe. Muita conversa e afinidade, e um rosto conhecido ao largo, na orla, misturado, nele próprio, a outras feições também conhecidas.
Gozado, mas nem é questão de eu ser má fisionomista, não. Acho que minha memória talvez seja mais esperta do que eu pense, porque ela simplesmente deu pra me confundir. Cefalotórax + abdôme no que passou, é mais ou menos por aí.
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Lá fora faz uma vento gelado de doer os ossos. Bom pra se manter bem acordado.
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Eu tinha escrito o último texto pra esse blog. Postei. Deletei. Também é recorrente o pensamento de que tem algo ali adiante, e o meio de transporte até lá, ainda que eventualmente se perca por negligência, não cessa.
Esse movimento é contínuo. Ao menos, se pretende ser.
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Atravessar a Eusébio Matoso (ou Rebouças? nunca vou saber) ou encontrar o mendigo de sempre, com a perna torta de sempre, com a caneca imunda, à mão, de sempre? Essa é a dúvida que me faz partir pra rua dos Pinheiros sempre que preciso ir à agência bancária mais próxima. O luxo da Faria Lima é logo preterido pela deterioração humana e urbanística do Largo da Batata só pra evitar de ver, novamente, a cena de engavetamento bem ao lado, à uma da tarde.
O mendigo pedinte na porta do banco é menos corrosivo aos olhos e ouvidos - pode isso? - que o trânsito dessa cidade. Por enquanto penso assim.
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Reparei que a mendicância é meio um status de vida por aqui. São muitos, nos mesmos bat-pontos, e com uma altivez que eu não estava acostumada a ver num sem-teto. Lembrei da comunidade antiga "nos EUA, até pobre fala inglês" do empoeiradíssimo orkut...
Esses dias, chegando ao metrô, ouvi dois senhores no terminal de ônibus do lado de fora comentarem animadamente há quanto tempo 'moravam' nas imediações. São dois mendigos que às 11h estão sempre batendo papo, chapéu ao chão, e à noite dormem bem mais cedo que eu: quando passo, já estão na calçada oposta cobertos sabe-se lá com o quê.
O senhor do pé torto à porta do banco tem um jeitão mal humorado. Confirmei no dia em que perguntei a ele se precisava de ajuda pra atendimento médico e ouvi um "preciso é de dois real, moça, vai ter?", na resposta capaz de embriagar caso o tête-à-tête durasse mais alguns segundos. Ok, desculpa por existir, tá?
O estranho é que esse mendigo do banco (hum. faz sentido...) é gordo. Mendigo gordo. Antes de pensar na destinação ilícita do trocado, prefiro imaginar que não dando dinheiro eu estou é ajudando o sujeito. Não vai comer porcaria na rua. Não vai!
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Aí lembrei da senhorinha de 70 e muitos anos que ficava à porta do mercado Musamar, em Londrina, fazendo seus biquinhos de crochê em pano de prato. Vendia cada um por cinco, sete reais, mas com uma dignidade impossível de mensurar.
Atitude digna, sem dúvida. Mas cada vez que eu via aquela mulher tendo de vender pano de prato por necessidade, dava era um misto de nó na garganta e de revolta. País sem valores. Ou de valores trocados.
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Eu disse aqui um dia que queria que 2010 fosse um ano que deixasse saudade só das coisas feitas, executadas, não deixadas apenas na intenção. Cumpriu o voto.
Um 2011 de (re)descobertas, encontros e reencontros pode complementar a intenção de outrora. Posso dizer que, musicalmente, meu ano tá bem razoável.
Quando choramos a morte de alguém, na verdade choramos nossa própria morte. Essa ideia é de Santo Agostinho. Ouvi-la hoje depois de uma tragédia como a que se abateu sobre aqueles pais, avós, irmãos, padrinhos e amigos faz muito sentido. Muitos morreram junto com seus pequenos, e sentir compaixão por essa gente toda, mesmo sem conhecer quaisquer deles, é um sinal de que a vida agitada, apressada e no vaivém insano da impessoalidade que atropela até mesmo o olho no olho não está de todo perdida.
Vai demorar pra esquecer daquela avó que lembrou com dor: tinha se despedido com um "Vá com Deus, Deus te acompanhe" sem saber que nunca poderia repetir o gesto à neta de 13 anos.
A dor dessa mulher me ajuda a entender e pôr panos quentes e macios na minha: afinal, a vó (diferente de 'avó', entende?) tão querida e tão saudosa cumpriu a ordem natural das coisas. Não passou pela tristeza de ver isso se inverter numa realidade embrutecida por homens.
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O massacre em Realengo aconteceu no "dia do jornalista". Na manhã seguinte, um jornal daqui de São Paulo estampava, em nada menos que meia página, a foto do rapaz doente (ou, pro béin-sensato governador fluminense, "animal") abandonado em sangue, cabeça perfurada --a cereja, em suma, num bolo de completo desvario. Dia de quê? Comemorar o quê? Obrigada, eu passo.
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É preciso se deixar morrer todos os dias.
Também faz todo o sentido, cara pálida.
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Abri ontem as últimas caixas da mudança (passa uma brisa por meu quarto agora, impressionante), depois de mais de mês de CEP novo. Segui os conselhos duma querida e, caso mude um dia novamente, prometi pra mim mesma o deadline máximo de uma semana pra me desfazer de todo o papelão. Não pode, não pode!
Voltei a ter minhas plantas - e gozado como são elas, e não a organização xuxuzinha do apê, que o transformaram de 'casa' em 'lar'. É a ordem natural daquilo que renasce, não? Também faz todo o sentido.
------------ mapa mundi - tiê e thiago pethit
Criou um ramalhete de palavras/pensamentos dispersos, abotoou o casaco na noite escura/gelada e puxou da memória as saudades tão antigas e escondidas/esquecidas nos versos e rifles. A vida soava tão mais simples/absurdamente simples com 17 anos a menos, impressão? Hm, a checar.
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Se a insônia veio dividir aluguel, a preguiça de dirigir tá arrumando as malas. Sentiu de fato.
------------- whatever - oasis
Pitangas caídas ao chão. Enormes e suculentas pitangas.
Damascos espalhados. Macios. Carnudos como nunca vi.
E um casal de idosos me ajudando a apanhá-los, ao longo de uma escadinha antiga e amarelada pelos raios do sol poente. Era uma espécie de Londrina, uma espécie de cenário de interior da tenra infância, familiar e ao mesmo tempo desconhecido do racional. Copiou?
Curioso como até em sonho mudam as estações.
--------------- jealous guy – tiê e thiago pethit
E então o rapaz viu o assento "especial", azul-bebê, e sentou a filhota, pitica, que segurava a boneca no colo. Se ajoelhou e foi brincando durante o caminho. O longo caminho. Pediu que ela não jogasse o papel das bolinhas de chocolate no chão e foi atendido com um gracejo tão espontâneo que desarmou a seriedade dos que portavam semblantes e guarda-chuvas fechados – ah, esses alagamentos... – na tarde cinza de um pré-carnaval estranho que só vendo.
Nunca o caminho até a consolação me pareceu tão rápido. Acho que foi aquele amor sem troca, tão fecundo. Bonito, assim.
--------- There’s too much love – Belle and Sebastian