7.12.11

só as "atualizações mais importantes"

"Dizem que na vida a gente se acostuma com tudo; não é verdade. Anos já se passaram e eu não me acostumei. Ninguém esquece uma saudade, nem substitui um amor."

Confesso: tem uns diálogos de novela que me tiram do sério. Quando tiram assim, tanto melhor, porque me levam a refletir, de fato, sobre caminhos que a vida segue, persegue e dos quais desvia. Não preciso buscar isso necessariamente numa homilia ou num livro, pode ser num meio "de massa", mesmo. Alguns diálogos --a maioria, nesses de novela --entram por um ouvido, provocam, tamanha a chacota ao senso de realidade, mas logo se dissipam. Não ocupam espaço no hd afetivo.

Esse aí foi um trecho de 'diário' que uma personagem escreveu a outra, sua irmã, durante as transformações do lado de fora de um quarto de hospital. Uma das jovens, em coma durante anos, não viu a filha crescer e inaugurar as primeiras "primeiras ações" de vida --os primeiros passos, a primeira festinha junina, o primeiro dodói. Mas a irmã-e-melhor-amiga registrou tudo no blog, lido em meio aos flashbacks da pequeninha aprontando lindezas.

Quando ouvi isso, lembrei na hora de um texto da Marina Colasanti já postado aqui. A gente se acostuma, mas não devia. Mas qual a saída pro não se acostumar: enganar a lembrança? Modificar a memória --que não precisa de esforço pra bater à porta --com subterfúgios diversos?

Não acho que a gente se acostume. O que a gente faz é deixar as saudades adormecidas e as dosar de uma maneira a se levar a vida adiante, sem olhar muito pra trás porque a estrada carece de atenção, sempre. E uma atenção vigilante, sóbria. Porque fixar os olhos num ponto e fingi-la, ao menos pra mim, é algo que nem nas aulas de yoga costuma dar certo.

As sensações e pensamentos sobre o diálogo das duas irmãs vestem como uma luva macia, mas difícil de encaixe perfeito em todos os dedos, num dia como hoje. "Anos já  se passaram" e eu não me acostumei com a falta do abraço e do beijo na avó querida que foi a segunda mãe, tão presente, e que completaria anos neste dia 6. "Ninguém esquece uma saudade", nem substitui um amor --não mesmo.

E no caso de dona Benvinda, que chamava os netos de "meu passarinho" de um jeito tão cândido, a saudade fica mantida em cativeiro ao passo que o amor vira o alicerce pros outros amores que vão agregando os retalhos e compondo a colcha. Sem substituições: só com pequenas e grandes emendas que são a analgesia às pedras que formam também uma crosta de pés resistentes.Ou os nós que tornem o bambu mais forte.

Acredito que esse referido é verdade, passarinho.
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don't know what save you from - kings of convenience


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