28.4.10

(re)descobrindo

Em duas semanas, duas descobertas lindas de uma Clarice quase cronista - porque ela não aceitava o rótulo -, de publicações no JB entre 1967 e 1973. Se era tão misteriosa que não se entendia, como sublinhou num desses escritos, ela também mostrou um lado capaz de tocar pela simplicidade que não é, necessariamente, rasa.

Sensação de gratidão imensa por essa brasileira. Tenho sido avessa a cartas, mas, se estivesse viva, ela seria a destinatária de uma, bem especial (pra autora), de poucas palavras – que escrevo mentalmente, todos dos dias, terminada a leitura (aqui, sim, difícil achar um fim; quer-se sorver tudo no menor e no maior tempo): Clarice é poesia pura.
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Uma dessas publicações, de 29 de março de 1969, está transcrita abaixo. Curioso procurar pelos textos dela na web e achá-los em partes – ainda que não sejam, como se observa este um, extensos. Ainda que fossem! –; assombroso ver que os ‘rapidinhos’ cortam trechos inteiros, substituindo-os por colchetes e reticências, e suprimem o que jamais poderia sê-lo. Acreditam, assim, estar difundindo a obra da escritora. A que custo?
E deu.
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O impulso


Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. Há um perigo: se reflito demais, deixo de agir. E muitas vezes prova-se depois que eu deveria ter agido. Estou num impasse. Quero melhorar e não sei como. Sob o impacto de um impulso, já fiz bem a algumas pessoas. E, às vezes, ter sido impulsiva me machuca muito. E mais: nem sempre meus impulsos são de boa origem. Vêm, por exemplo, da cólera. Essa cólera às vezes deveria ser desprezada; outras, como me disse uma amiga a meu respeito, são cólera sagrada. Às vezes minha bondade é fraqueza, às vezes ela é benéfica a alguém ou a mim mesma. Às vezes infringir o impulso me anula e me deprime; às vezes restringi-lo dá-me uma sensação de força interna.
Que farei então? Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.
Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
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vagabond - wolfmother

15.4.10

(a)feição

você aponta pra certas situações sem notar que os dedos restantes estão todos na sua direção.
foi assim lá atrás, quando lhe pedia que não colocasse tanta coisa à frente de outras, foi assim ontem e hoje - sei lá até quando -, quando o descanso deu a pausa que a consciência julgou (no mérito...) ser obrigatória.

depois de um tempo, é bom ver que, de erro em erro, a gente acaba acertando alguma coisa; não tinha como ser diferente. e sou bem, mas bem otimista em relação a isso. gosto do que faço, e 'perder' dois dias de férias em nome desse sentimento me ajuda também a entender um pouco da workaholic que tenho dentro de casa. ah, gláucia.
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um ano já, quem diria?
um monte de gente.
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here it comes - doves

13.4.10

500 days of summer

Teve aluno morto à frente da universidade, bem no centro. Teve três ônibus incendiados em menos de 48 horas. Tem a tragédia toda das famílias inteiramente desmanteladas, lá longe, todo dia martelando o noticiário com novos números. Tristes números.

Eu podia apenas saber que tem muita coisa nessa vida mais séria com o que se preocupar. E há. Mas hoje, alguns anos depois de percorrer aquele velho caminho, pela manhã, e parar naquele quiosque de 32 anos, praquele café (preto e tão bom), senti um desalento e um alívio. Desalento por ver um patrimônio histórico sendo destruído, aos poucos (até porque a coisa lá é lenta), travestido de modernidade. O novo calçadão é uma lástima, no sentido puro da palavra. Desmerece, sem querer, a maiúscula que já lhe fora conferida. Padece de identidade. As pedras coloridas que se esforçam pra copiar o desenho do mosaico preto e branco se perdem, sufocadas por tanta milimetrice austera.

O alívio vem por, 11 anos quase vividos aqui, por opção, sentir Londrina como a minha cidade. A primeira sensação doce foi justamente no Calçadão, à noite, em janeiro de 1999, extasiada com aquele cenário tão mediano e tão limpo, tão tradicionalesco (o outro ventrículo do meu coração, a parte paulista, também tem petit pavets) e tão jovem. Incrivelmente jovem. Com os anos a degradação muda o olhar, mas nunca o extermina na essência. E se destroem parte disso, uma parte da minha história, pequena história, vai junto com aquelas pedrinhas sem-vergonhas.
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Naquele filme de ontem, pequenos e enormes recados que servem pra pensar um caminhão de pedras com e sem encaixe. "Da próxima vez que olhar para trás, você deveria dar uma segunda olhada", diz a menina. De tanta coisa que tentou "atribuir significância cósmica a meros acontecimentos mortais", foi a pedrinha mais necessária que eu fiz questão de guardar no bolso.
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there goes the fear - doves

7.4.10

dorme, meu bem

O Saraiva - sim, o personagem - não era fictício. No dia a dia, ele fica adormecido, chega a tirar umas férias longas, mas está lá, piano, até que lhe cutuquem.
A moça chega no destino final, se dá conta de que a mochila com os pertences sumiu do compartimento que fica ao alto. Pertences simples como uma tese de doutorado que não é dela, claro (grifo nosso). Simples como a chave de casa, até hoje sem as partes de cima que um chaveiro lhe identificaria. Tudo isso na simplicidade da uma da manhã, com uma rodoviária simplesmente às moscas.
A moça pergunta já com um curta passando pela cabeça, ou com a novelinha, mesmo, que viria. Seo Cícero, o motorista, pensa alguns segundos e conta que a mochila ficou na cidadezinha que passou, uns 100 quilômetros atrás. "Desceram com ela por engano, mas tá guardadinha. Ah, só amanhã pra rever".
Seo Ene - a moça não fez questão de ver o nome - pergunta se ela viu a mochila descer. Seo Agá - a regra vale pro distinto também - quer saber se a moça (parece que dormiu dois terços do caminho; estranho, pra essa moça) viu "a pessoa descer com a mochila". Claro que ela viu: a bolsa usava adidas e saiu faceira, apesar da frente fria acolhedora. Ah, e óbvio que a moça (desatenta, essa moça) viu a tal mochila, calçadinha, sair de braços dados com o esperto que dormiu um pouco mais que essa moça. Que, afinal, esperou tudo isso só pra ter um momento de lazer na vida dela, à uma da manhã de uma terça-feira gelada, com Seo Ene e seo Agá.
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Pantoprazol pra essa moça, aliviadíssima.
(Torres Pastorinho tem discípulos londrinenses, certeza)
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Algumas respostas são mais aguardadas que aquela mochila de viagem. Por isso, me disse, a moça começou a tarde no superlativo daquela sensação. Esperas que levam anos e esperas de alguns dias (que parecem anos), sanadas com as respostas certas das pessoas certeiras, dão um comichão de que, ufalelê, saraiva dorme.
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a day in the life - beatles

28.3.10

pondevista

Duas semanas pra alforria.
Duas.
Hoje eu falava pra minha mãe dos exames a menos que ela tinha pela frente - mais uma leva deles, um ano quase após a cirurgia. Pensar em "exames a mais" parece desanimá-la (e eu fico triste com isso), então tentei explicar que, os fazendo agora, é algo a menos com que encher a cabeça (e eu fico bem feliz quando vejo que ela ouve isso).
Portanto, duas semanas a menos na minha espera pela frente, com preparativos a mais (aí eu vi vantagem) pra dar conta.
Jesus toma conta.
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here comes the sun - beatles

21.3.10

polianas coronarianas II

Podia atribuir amizade a um monte de coisa - atitudes, palavras, mas a memória, seletiva até nisso, teimou em ficar com aquele dia na lembrança. A mão estendida na beira da rua, no instante em que as outras ruas davam pro nada, ou cruzavam, confusas; a crença no sorriso depois da tempestade; o empurrão que faltava.

Foi esse o parâmetro mais bonito de amizade que a vida me ensinou.

Boniteza e dureza de parâmetro. Você passa a não se contentar com a profundidade de poças d'água, mas também a ver que a aridez das ruas confusas seca além delas próprias. É esvaziador. Seletivamente esvaziador.
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Não se apagam as digitais das vidas que tocamos, não foi assim que você ouviu? Acredito. Por isso que criança não põe a mão no fogo duas vezes. Não tem pasta de dente que salve. Só o aprendizado.
Sê todo em cada coisa / Põe quanto és / no mínimo que fazes - não foi assim que você leu? Disfarce, consigo, a compreensão. Por vezes é bom deixar de ser pessoa.
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Nada original - Pato Fu

10.3.10

polianas coronarianas I

então juntou todos os pedacinhos feitos em cacos até que se formassem novamente um pedação colado. 'lego' sempre foi dos seus passatempos preferidos. mas tinha se esquecido. tão óbvio que resolveu aprender a jogar paciência – ainda não aprendeu, tantos anos depois do primeiro micro. a imprudência a 100 por hora tem ajudado a entender alguns lances desse jogo moroso.
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aí notou aquelas pessoas, o tempo estampado nas mãos, em relevo, buscando o direito de sair às ruas (legalmente) motorizadas. o olhar de curiosidade e entendimento do rapazinho que fitava décadas de vida, pelo computador, fez da espera algo menos monótono. é curioso como o óbvio, por mais definitivo que se imponha, seja capaz de ainda estarrecer.
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aí prestou um pouco de atenção na propaganda da tv local – buscou uma concentração rara pra tarefa – e percebeu que a tônica de uma e outra eram opostas. a do pretenso jornalão dizia que ele era a solução pra quem queria 'respostas pras perguntas'. a do canal educativo apresentava várias perguntas como mola propulsora de um mundo em processo constante de descoberta. então, na teoria, gostou da dicotomia.
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the loneliness of the middle distance runner - b&s

8.3.10

simples assim

então eu peguei o keane que repousava na prateleira nova e resolvi dar a ele uma chance nova - tão diferente dos outros dois, esse um. terminei com a sensação do antes-tarde-do-que-nunca martelando o peito. sensacional. redenção, alívio e um ligeiro aperto por ter deixado correr tanto tempo.
vai passar.
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love is the end - keane
nothing can touch us and nothing can harm us
and nothing goes wrong anymore

14.2.10

avisa que é de se entregar

"A idade traz experiência", "a experiência traz sabedoria", e, puxa, mutiplique por 100 o número de chavões que relacione avanço do tempo com inteligência, que você vai chegar perto de quanta bobageira se pode pensar e falar a respeito. Não que os anos vividos não representem ensinamento, muito pelo contrário - só acho uma pena quando se estabelece O QUE é a tal sabedoria, em que patamar ela se encontra e quais mecanismos o reles mortal precisa adotar pra acessá-la da forma "como se deve".

Puxa, que narigão de cera pra falar uma coisa simples: não aguento mais ler e ouvir o povo reclamar que é época de carnaval, e que merda que é carnaval, e que droga que é ouvir samba e pagode (sim, tem gente que acha que é tudo igual), e que chato ligar a TV e ver que é só isso que passa, e que, e que, e que... ah, vá, vá. Do feriado ninguém reclama, né?

Que eu saiba, uma emissora tem a exclusividade de transmissão dos desfiles. E, ainda que seja um saco ver chamada de carnaval um mês antes do evento (sou a primeira a reclamar, reconheço), é simples: controle remoto. Tá difícil? Tem CD que não é de samba-enredo pra se ouvir e um monte de livro bacana - mas um monte mesmo - que não trata da tal festa. Cinema, ao que consta, também nao fecha nas noites carnavalescas.

Goste-se ou não, é expressão de parte da cultura do país. Sem nacionalismos, ok?, só constatação. Assim como o espanhol acha uma beleza festas em que touros saem correndo atrás de pessoas - ou, que nojo, em que é pu-ra diversão tacarem tomates uns nos outros -, ou o tediante (pra mim) 4 de julho, muito brasileiro (e gringo) vê no carnaval a festa que melhor representa o Brasil.

Eu já achei tudo isso um porre, e creio que, em grande parte, porque nunca tive muito a dimensão do que é o samba na identidade musical do brasileiro, e nem tenho ainda, plenamente - quem tem? Mas mudei conceitos fechados e me sinto muito bem com as mudanças. E me incomodo quando vejo que, nem por desconhecimento ou antipatia - meus antigos combustíveis -, mas por puro modismo, mesmo, tem quem se divirta e gaste um tempo ignóbil em desancar tudo isso.
Baita conceito aberto esse da sabedoria, né? Curuzes.
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Se sentir sozinho no meio da multidão é fácil. Quero ver a proeza acompanhado. Em breve, um manual.
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Eu escrevi aqui que 2010 vai me deixar saudades. Espero (mantra: esperoesperoespero, ouuummm) que saudades daquilo que for/foi feito, e não deixado de fazer.
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Pois é - Los Hermanos

2.2.10

labirinto de corredor em paralelo

Às vezes eu me assusto quando paira, de perto ou de longe, a pergunta do "onde foi parar o afeto do mundo?"
Acabou? Quais as tendências? Existe reversibilidade no processo, uma vez este "efetivado com enorme sucesso"?
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Onde foi parar o afeto do mundo? Num recôndito que nem a memória lembra mais (de tão bem guardado que foi, quedê?), numa carta que os olhos perderam por aí, numa oficina de como-fazer-amigos-pra-sempre-num-estalar-de-dedos e perder outros com a mesma competência? Numa fábrica de produção e de esfacelamento de doutrinas?
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Onde foi parar o afeto do mundo? Na lua enorme que fez hoje, contemplável a sós, e, nessa toada, agora não mais que um fenômeno... natural? Nas ruas cheias de sujeira misturada com gente, de gente envolvida em sujeira, em sujeira que não se recicla? No descompasso antes sôfrega, agora meticulosamente trocado pelo desalento que nada produz - sobretudo não produz nem subestima o que não se encontra na lama, jogado aos porcos? Na relação respeito x produtividade tão obtusa aos relacionamentos antes... como era, mesmo... "humanos"?
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Onde ele foi parar? Em 140 caracteres, em monossílabos criados e que se presumam cheios de significado, mas deteriorados pela automaticidade da produção em larga escala (fria escala, essa), num copo de saquê adociçado por olhares furtivos que pouco entendem sobre onde, afinal, foi parar o afeto do mundo?
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Pergunta estranha, pra gente esquisita. Não tenho a resposta. E, hoje, nem quero.
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tiê canta

28.1.10

esqueça a rima que for cara (devagar)

E é então que a alegoria da mochila e seus pertences fica insistente na memória. O que se guarda? O que tirar antes de por fogo na tal, no dia seguinte, de manhã? Fotos pra que, se existe ginko biloba pra memória? O que faz mais peso nas alças?
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E é então que essa tal 'alegoria' não me sai da cabeça. Acordo com umas palavras - já foi pior: músicas bregas, por exemplo - que não ouvia ou lia há muito tempo. Hoje foi essa, numa brincadeira tonta com um amigo; ficou, foi pra alça. Amanhã, quando eu acordar no duelo com os quatro alarmes, já esqueci.
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E então eu me lembrei daquela mulher que vi ontem cedo, logo cedo, e já com um olhar de quem havia passado uma semana inteira pensando sem solução pra não sei o quê. O que ela procurava naquela esquina, sentada à frente do estabelecimento (mais um) que virou mocó em ponto nobre? Não sei. É difícil às vezes encontrar, pra si e pros olhos - esses seres de vida própria -, respostas pro que se procura numa esquina. Talvez só atravessar a rua, olhando o semáforo. Um saco chegar a uma conclusão besta dessas depois de olhar um tempão pro céu imaginando que um avião, caindo ali, podia ser também uma das alternativas. Não é, e atrás alguém buzina, porque a luz vermelha esverdeou.
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Aí, janela à tarde escancarada graças à pane do ar condicionado, eu vi aquelas pessoas andando, tranquilas, enquanto caía o mundo em forma de pancada de chuva de 10 minutos, fazendo fusquinha pra um sol bonito que abriu (me disseram depois que, inclusive, com uma faixa de arco-íris). Estranhei o que os olhos mostravam, e agora percebo que os seres de vida própria, suscetíveis a alegorias tolas, não perceberam que não era gente exatamente alheia à chuva. Teria algo, aliás, em suas mochilas?
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Samba de um minuto - (claro,) Roberta Sá

29.12.09

pelo sabor do gesto

O Natal em casa me chamou a atenção às pequenas iniciativas cada vez mais deixadas pra trás num mundo de facilidades – facilidades compráveis, claro. Me lembro de como era bom, no final de semana, tarde de sábado com Chacrinha rolando solto na TV, minha tia comprando umas bolachas de leite redondas, mas cheias de quadradinhos (que voltaram recentemente mas podiam sumir, junto com as Passatempo. Ugh.). Nas lembranças, me pego acompanhando meu avô lavando o carro, ou meu pai dando um trato na motoca.

A vó falava que o carro ainda enferrujaria, tamanho o cuidado semanal. Ocorre que meu avô tinha um oleozinho danado, em spray, cuja aplicabilidade até hoje desconheço, mas que obtinha a façanha de o conselho da esposa não se transformar em sentença.

Enferrujaram-se os hábitos, deram spray em outros, os tempos mudaram. O lava-jato dá conta da limpeza do veículo, mas não com aquele zelo do todo-mundo-querendo-ajudar – um com os tapetes, outro querendo lavar os pneus. No final da tarde, enxarcados, ainda tirávamos no par ou ímpar, eu e meu irmão, quem faria os serviços de secagem antes do banho e do passeio triunfal. Curioso é que sempre um ganhava (não conheço, ainda, outra possibilidade pro par ou ímpar), mas nenhum abria mão de sair flanela em punho pra tirar a última gota do capô. Pu-ra emoção.
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O supermercado oferece uma sem-gama de possibilidades pra ceia natalina. Na fila pro pão, vi pessoas desesperadas em busca de massas de preparo simples, desde que com um mínimo de planejamento. E olha que sou eu falando... Na contramão desse processo, a preocupação de minha mãe com algo feito por ela própria, da origem à embalagem de presente, me tirou um pouco do torpor. Assim como as horas investidas de limpeza do carango regadas a conversa com o vô amado.
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É um torpor estranho, esse; sazonal, mas com uma intensidade que ainda estou descobrindo, nesse final de ano - até pra saber se ele é um mal estar passageiro ou uma seta indicadora. Aquele mal estar de sentir tudo seguindo um ritmo impessoal, sistêmico, em que todo mundo é o 'querido' da vez agora, ou daqui a pouco – não importa: importante é dizer, travestido de certa cordialidade –, sendo o 'querido' seu conhecido ou seu melhor amigo de anos. Acho que enferrujei, ou não entrei ainda nessa engrenagem de facilidades não exatamente dispostas numa prateleira física, mas presentes no atacado com um mínimo de prática. E de estômago.
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A vida foi feita pra ser parida. Ela me faz movimentos de contrações, e eu entro nela.
O problema é a hora do parto: se estará, algum dia, plenamente pronto pra ele?
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Que o próximo ano venha sob medida. Sem pesos nos dois lados da balança, por mais incrédula que eu me sinta apostando nisso.
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Ambição - Rita Lee (versão Zélia Duncan)

15.12.09

ahn? onde? como? por quê? "Pra quê?"

Fim de ano aí, verão no bico (eu podia não lembrar desse detalhe...), balanços do que se fez e se deixou de fazer batendo na porta, enxeridos. Eu tento evitá-los, e esse ano o balanço seria um tanto, digamos, diferente - em vários sentidos. E nem tão diferente assim, em outros. Algumas capacidades minhas parecem infinitas. Só parecem, eu vou descobrindo aos poucos, movida ao canto e a fogo. A dias que valem muito a pena e a dias que, enfim, fazem-parte-do-calendário-e-pronto. Precisam existir, que se há de fazer?

Seria um balanço tão diferente que eu prefiro só pensar que 2009 vai acabar num estalar de dedos e 2010 vai ser um ano pra deixar muita, mas muita saudade. E dessa vez, não de mim.
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Love will tear us apart - The Parsonage

10.12.09

sem papel de presente

- a vida é movimento
"Quem pariu Mateus que o embale"
- a vida é movimento
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"
- a vida é movimento
"Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor"
- a vida é movimento
"Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do não"
- a vida é movimento.
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Eu vejo Mateus ser embalado e o embalo. Cativo o que pode ser um fardo ou "um descanso na loucura" sobre minhas costas ou parado na garganta. Não tenho ódio, graças a Deus, porque alguma coisa ainda me faz crer que nem tudo nesse mundo cão está perdido. Quase perdido? Vai saber - pro totalmente, faltam algumas léguas das quais quero outras de distância. Acredito mais (ou menos) do que deveria acreditar, duvido menos (ou mais) do que deveria duvidar, entendo cada vez menos (ou mais) de livre-arbítrio de cima de um muro a despencar e corro, porque é em movimento que eu quero ser, também, espectadora dessa descoberta caoticamente organizada a se embalar.
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Mais alguém - Roberta Sá

8.12.09

apud cá dentro

Passei a desconfiar de certos chavões. Desconfiança que pode ou não ser sinônimo de incredulidade.

Chavões como o do "quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece". Troquei os verbos. Vi que o chavão pode, sim, fazer todo o sentido.

Passei a desconfiar também de algumas citações que antes, pra mim, não passavam mesmo de citações literárias – lindas, mas próximas demais, talvez, de um dia a dia tão do outro. Um outro lírico, distante do meu cotidiano do, muitas vezes, um-dia-depois-do-outro. O dia a dia das contagens regressivas, dos abraços perdidos e das saudades martelantes.

Citações de Sartre, tentando delimitar um pouco do inferno que há na terra; citações de Guimarães que me tocaram pra sempre, quando li, num chão de museu, que "qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura".
(...)
Sinônimo, não: a desconfiança é o antônimo.
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29 - Legião

16.11.09

em progressão geométrica

Hoje eu pensei nas contagens regressivas, no quanto já fiz uso delas e o quanto me instigavam. Contagem regressiva pro aniversário e as puxadinhas de orelha que meu pai me dava, correspondentes aos "novos anos". Bobinha, achava que os (bem) mais velhos tinham orelhas maiores pela proporcionalidade de tantos puxõezinhos festivos.

Contagem regressiva pro Natal. Eu e meu irmão deixávamos um par de calçados na beira da árvore, na sala, pra no dia seguinte, cedinho, correr lá ver o que o Santa tinha deixado pra gente. Morria de medo de deitar tarde (é, isso faz tempo) e ouvir os passos do dito cujo chegando. E nem chaminé eu tinha.

Contagem regressiva pras férias de fim de ano. Criança/adolescente é mesmo um bicho estranho: passava o ano todo se lamuriando das provas, torcendo pra julho e dezembro chegarem, fazia a tal contagem, mas aí chegava as férias e era um chororô danado das amigas que se separavam aquela enormidaaaade de tempo.

Contagem regressiva pras férias celetistas. Aleluia, irmãos.
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Hoje, algumas contagens regressivas são verdadeiras portas pro desconhecido, certas vezes, ou minas d'água sob o sol a pino, noutras. Instigam, mas sem a ingenuidade de outrora. É algo meio sem nome, meio sentido, meio vivido, meio sonhado. Com os dois pés bem fincados no chão, é verdade. Sem areia.
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As minhas contagens são regressivas. Vi uma série de reportagens na TV, esses dias, sobre pessoas desaparecidas, e tentei, por alguns minutos, me colocar na pele daqueles que esperam daquela forma - naquela contagem progressiva infame e corrosiva, a fórceps, revestida de esperança. A mãe adotiva que viu a filha de 16 anos sumir, ficou doente, fez a mastectomia e descobriu, meses depois, que a filha não estava morta: havia fugido com um rapaz. Descoberta seca, ao telefone, misturada a alegria e tristeza. Acho que nunca mais vou esquecer as olheiras daquela mulher: "Quando eu mais precisei dela, ela não estava lá. E eu dei tanto carinho..."

Outra mãe - essa que foi uma das mais emblemáticas na série - esperou, esperou, mas a filha não voltou. Viva, é verdade: haviam feito maldade à pequena dela, encontrada num desses terrenos baldios onde jazem as vítimas de famílias açoitadas de realidade. A mãe fundou uma associação pra ajudar outras famílias na busca de seus desaparecidos e disse uma coisa tão bonita: "É como se eu encontrasse minha filha em cada reencontro que acontece. Os reencontros são sublimes."
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Por um instante, o tempo pára.
Sublime.
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Haja o que houver - Mylene (canta Madredeus)

6.11.09

quente e frio

O moço na fila do restaurante, ontem à noite, me alertou: "Cuidado, moça. Essa colher tá quente. Se for se servir, pega com cuidado". Os borrachudos que atacaram a mesma mão direita (e pernas, braços, cotovelos...) horas antes, em frente à unidade prisional onde cumpria a pauta, não tiveram o mesmo zelo comigo. Mão gorda, mão gorda.
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É curioso como algumas pessoas tentam esconder fatos criando outros. Ontem, agente público preso sendo solto, um sujeito passa à frente de equipes de reportagem, dando rasteira e recebendo o apoio do irmão do ex-detento (que pedia pro carro seguir "reto", ou seja, à nossa frente), xinga Deus e o mundo. Em cinco anos e pouco de cobertura política, confesso que certas coisas ainda me assustam. O ser humano sempre é surpreendente, não tem jeito – e talvez o dia em que eu deixar de pensar assim, imagino, será pra mim uma constatação surpreendentemente triste.
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Cheguei à minha mesa desordenada, no fim do dia, e havia uma caixa bonita com um bilhete em cima: agradecimentos pelo retorno do "membro querido da família" (sim, o tal sujeito que eu acabara de ver saindo sob escolta da claque) e, dentro dela, três fatias de (pizza? Não,) bolo. Bolo de aniversário. Amigos e colegas haviam comemorado à tarde os três aniversários da semana, na gentileza de um companheirão de anos de casa. Comemoraram também o trote do ano. Pata, patinha.
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A colher quente, o bolo guardado (três fatias; olha a pujança), a articulação de alguns vários só pela reação à pegadinha e a frase que encerraria minha noite, de fato, antes daquela do moço no restaurante: "só se oferece aquilo que se tem".
Surpreendentemente simples, é verdade.
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Tempos Modernos - Lulu Santos

21.10.09

chove mais, vai, duvido que chove mais

Choveu tanto, mas tanto que a Câmara de Vereadores rachou, o Fórum recém inaugurado rachou, a calçada do prédio onde moro estourou. Mais um pouco e sai a Caverna do Dragão inteira lá de dentro.

Eu não aguento mais falar de chuva, ouvir falar de chuva, pautar ou ler matérias sobre chuva. Adorei o solzinho mequetrefe que saiu hoje, mas os raios que ouço agora, ao longe, e a ameaça de novo corte repentino de energia me dão aqui no íntimo uma ponta de desgosto do assunto de amanhã cedo. Ah, que sandice essa de São Pedro. Que chatice a minha. Ah, pôxa.

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Foram-se as rugas da testa, percebi, pra se formar um princípio de tique nervoso nas pernas. Já avisei pra ele que, se não parar de pular, para na marra: correria todo dia, em vez de alternadas três vezes na semana (haha). Falta só eu me dividir por mitose (isso aí), ajustar o sono do miserável início do horário de verão em dia e bye pro marvado (o sono acumulado; infelizmente, não o horário de verão). Venço ele na fraqueza! Entendeu? Nem eu.

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Contagem mais que regressiva. Aliás, duas delas. Entendeu? Eu vivo isso.

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Battleships - Travis

16.10.09

olha como a tarefa dela é bonita

Não fosse pelo informativo da assessoria da universidade, nem lembraria mais que o Dia do Professor, nas instituições, é comemorado com um singelo recesso. Pra mim ficaram mesmo a data e os nomes todos que ela me remete - alguns mais, outros menos detidamente na memória.

Engraçado como a gente chamava as professoras de tia fulana, tia sicrana, há 20 e tantos anos (meu Deus...), e isso não soava desrespeitoso. Hoje, é tudo mais impessoal. Também não vislumbro como seria diferente, confesso.

Lembro da tia Marilena, minha professora da primeira série que usava de uma artimanha toda dela pra aplacar meu choro dos primeiros dias de aula: elogiava minha letra. "Olha como a letra dela é boniiita!", e mostrava pros coleguinhas do lado, cúmplices no pequeno golpe que contava, ainda, com a posse da chave da cópia da chave do carro da minha mãe, que trabalhava no colégio. O bacana dessa fase (pras mães) é que criança não difere muito chave original de cópia.

Nunca me esqueço da tia Ercília, professora da pré-história do meu currículo escolar, antigo parquinho. Não sei se a nomenclatura existe ainda, "parquinho", antes do "prézinho"; só sei que tia Ercília misturava qualidades de educadora e de quem, durante toda uma tarde, ainda cuidava de uma filha (e de tantos outros) que não era a dela: tinha um carinho singelo, zeloso, discreto. E marcante, pra sempre. Quando fiz 6 anos, naquele novembro de 86, ela me chamou num cantinho da sala, enquanto a turma se esbaldava nos brinquedos do parque, e me deu um abraço de felicidades. Nas mãos, tinha a fabulosa "lousa mágica", febrinha da criançada que podia, e que, dias antes, ela tinha de aniversário dado a outro aluno da sala - sobrinho e afilhado dela.

Anos atrás minha mãe me deu a notícia da morte abrupta de tia Ercília, causada por um câncer aparentemente raro e muito difícil, portanto, de tratar. Até hoje - acho que lá se vão uns seis, sete anos, já - me lembro dela também nas orações em que penso na familiarada que se foi, nos amigos da família, nos parentes queridos dos amigos queridos.

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Viva em carne, osso e mais um monte de mecanismo de sustentação que, graças a Deus, ela exibe hoje, minha mãe foi a felicitada da data. Foi a depositária do que eu gostaria de ter dito à tia Ercília, a tantas outras 'tias' e ótimos mestres que tive, adolescente e adulta, e dos tantos exemplos que tive em casa, uma casa de professores. Foi Gláucia quem me alfabetizou e quem me mostra que as lições de superação são pra uma vida inteira: não param no parquinho, numa sala de diagnósticos médicos e muito menos nas esquinas dessa vida.
E isso não tem lousa capaz de apagar.

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Sobre o amor e seu trabalho silencioso - Céu

8.10.09

teoria prática da relatividade

. uma pilha de coisas.
.duas pilhas pra carregar pra amanhã cedo.
. clarice tirando novamente meu sono com a maestria de sempre no que de mais denso há nessa coisa rasa chamada ser humano.
."Um bocejo tinha que atrapalhar".
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sete horas me separam de uns instantes de liberdade fabricada, mas a minha, numa co-parceria sem prazo de validade que me apraz e acalma. fabricada sem cartão-ponto, sem pressa no trânsito que enerva e relembra, fabricada sem a vontade de mandar tudo àquele lugar enquanto preparo minha nave pro espaço.
. que vontade de chutar um pé de mesa bem forte.
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passou.
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Florindo - Mariana Aydar