15.6.10

dessert é assim

Carregou cuidadosamente os morangos. "São os mais vermelhos e os mais suculentos" - eram o presente de sobremesa, embalado no gesto de carinho que deixou o nó na garganta, enfim, depois de mais uma espera que trouxe ansiedade e muito, bastante alívio.

Juntou o pé-de-moleque nos quadradinhos empilhados, cortados sem aquela precisão fria por aquelas senhoras tão ternas, mas feitos um a um com a devoção a Santo Antonio. Devoção das cantigas, entoada num italiano que, há anos, junta as vozes das crianças às dos septuagenários.

Aí pensou nas sobremesas que ofertou e que recebeu. Nas vidas que adoçou e nas vidas que lhe acudiram daquele paladar árido imposto pelo silêncio obsequioso e obrigatório das ruas.
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Hoje, açúcar convertido, é a metáfora infame do copo a que persegue os sonhos e a paralelice dos caminhos decorados.

É que o copo vive cheio, e cheio além da conta pra uma caneca diferente daquelas que ganhou, resistentes e cada uma com uma pequena-mas-importante-história-suportável à memória.
Sempre que o espaço desse copo-caneca insiste em dizer que não cabe mais, a poça em volta denuncia - mais uma vez - a negligência e requer - novamente - a solução paliativa pelos panos que sugam esses pingos que insistem em ser. Todo dia, ao que consta e emudece, costuma acontecer.

Bobagem cobrar simplicidade dos grandes mistérios, imagino.
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A verdade sobre o tempo - Pato Fu

6.6.10

geada queima

seja cedo, à noite, na madrugada quieta, é fato: no inverno, cada passo é uma coragem diferente.
(da série pequenos-ensinamentos-de-um-dia-a-dia-de-sempre)
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é preciso acreditar para desacreditar.
(outra)
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"bem vinda ao clube dos que acreditaram em Papai Noel", ela me disse. "e bem vinda à realidade: também existe o clube dos filhasdasputas", assim, sem meias palavras, completou, pra depois dar o sentido amplo que o termo, aparentemente só chulo, pode ter. que pode ter nessa vida. "triste daqueles que nunca acreditam". e foi então que aquilo me deu um alívio imenso.
só não esquenta.
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se cuidas de mim - tiê e tiago bettencourt

30.5.10

o tuninho vai fechar

- sabe qual a pergunta mais importante pro ser humano?
- não.
- não?
- essa não.
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- sabe qual a pergunta mais importante pro ser humano?
- nem ideia.
- sabe qual a pergunta mais importante pro ser humano?
- "puxa!", só pra falar que agora eu mudei as pontuações.
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Adoro biografias. Ganhei uma que vai pedir certa dedicação - aliás, ela nem me pede: eu sou a dedicação involuntária. Doce, essa sensação.
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a hora da estrela - pato fu

24.5.10

a estrada

eu leio coisas que escrevi há oito, nove anos por aqui e me surpreendo com o quanto (ainda) é possível perceber mudanças que o tempo fez questão de provocar, desde então. constatei como eram verdadeiras algumas objeções sobre o futuro - o poema preferido do Drummond, do dia em que o poeta faria 100 anos, que o diga -, quantas dúvidas eu carregava, quantas eu dissipei e a quantas apenas dei novas roupagens, com novas personagens, cenários e densidades mais ou menos interessantes.

o quanto eu acreditei, desacreditei, voltei a crer e prossegui nos novelos ou nas retas. acho que nunca vai parar a procura curiosa do 'onde-vai-dar?' nessa misteriosa linha do tempo. aquela coisa de olhar no espelho e se ter a constatação de que, opa, que ser é aquele ali, mas transferida pras linhas que descrevem banalidades e angústias. descobertas com exclamações e pontos finais que carregam reticências ou que valem por si.
cada coisa.
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no filme, o menino e seu pai tentam desviar dos perigos, rumo ao sul. encaram a tristeza de um cenário literalmente apocalíptico e protegem um ao outro. tão sublime esse senso de proteção, de zelo - será uma das várias faces do amor?

o menino não pode parar e precisa acreditar que, mesmo com tantos absurdos contra pessoas como ele e o pai, ainda há os "homens bons". é neles que o pai pede que acredite, é com eles que vai embora quando é preciso seguir o caminho. porque, pede o pai, ele precisa carregar a "fogueira interior" sem apagá-la. não à toa, ele faz questão de manter o filho sempre aquecido. acho que era a forma de manter acesa a fogueira dele, também.

o mundo interno e o externo podem ter metáforas surpreendentemente tocantes.
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between the bars - elliott smith

12.5.10

esqueça a primeira conjugação

a página está em branco.
o álbum de fotos está vazio.

há muito que listar no grupo de verbos da segunda conjugação. 'acordar' destoa. escrever/aquecer rendem rimas desnecessárias aqui.
há muitas fotos que abarcam lembranças. boas lembranças. eu, que já achei tudo tão medíocre, vejo hoje o quanto já fui tola pensando assim - porque são vários os tipos de álbum.
(e tem fotos lindas pra preencher os que separei)
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é curioso como mesmo a relação com as fotos pode mudar a concepção do batido o-que-os-olhos-não-vêem-o coração-não-sente. batido ou demasiado simples - simplista, na verdade -, vez que desconsidera algo tão português e tão pouco explicável por a+b num chavão.
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ora o congelamento de sinapses, ora um estranho efeito esfumaceador que chega e dissipa tudo no vento.
vou conjugar mais verbos.
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thieves - she and him

28.4.10

(re)descobrindo

Em duas semanas, duas descobertas lindas de uma Clarice quase cronista - porque ela não aceitava o rótulo -, de publicações no JB entre 1967 e 1973. Se era tão misteriosa que não se entendia, como sublinhou num desses escritos, ela também mostrou um lado capaz de tocar pela simplicidade que não é, necessariamente, rasa.

Sensação de gratidão imensa por essa brasileira. Tenho sido avessa a cartas, mas, se estivesse viva, ela seria a destinatária de uma, bem especial (pra autora), de poucas palavras – que escrevo mentalmente, todos dos dias, terminada a leitura (aqui, sim, difícil achar um fim; quer-se sorver tudo no menor e no maior tempo): Clarice é poesia pura.
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Uma dessas publicações, de 29 de março de 1969, está transcrita abaixo. Curioso procurar pelos textos dela na web e achá-los em partes – ainda que não sejam, como se observa este um, extensos. Ainda que fossem! –; assombroso ver que os ‘rapidinhos’ cortam trechos inteiros, substituindo-os por colchetes e reticências, e suprimem o que jamais poderia sê-lo. Acreditam, assim, estar difundindo a obra da escritora. A que custo?
E deu.
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O impulso


Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. Há um perigo: se reflito demais, deixo de agir. E muitas vezes prova-se depois que eu deveria ter agido. Estou num impasse. Quero melhorar e não sei como. Sob o impacto de um impulso, já fiz bem a algumas pessoas. E, às vezes, ter sido impulsiva me machuca muito. E mais: nem sempre meus impulsos são de boa origem. Vêm, por exemplo, da cólera. Essa cólera às vezes deveria ser desprezada; outras, como me disse uma amiga a meu respeito, são cólera sagrada. Às vezes minha bondade é fraqueza, às vezes ela é benéfica a alguém ou a mim mesma. Às vezes infringir o impulso me anula e me deprime; às vezes restringi-lo dá-me uma sensação de força interna.
Que farei então? Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.
Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
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vagabond - wolfmother

15.4.10

(a)feição

você aponta pra certas situações sem notar que os dedos restantes estão todos na sua direção.
foi assim lá atrás, quando lhe pedia que não colocasse tanta coisa à frente de outras, foi assim ontem e hoje - sei lá até quando -, quando o descanso deu a pausa que a consciência julgou (no mérito...) ser obrigatória.

depois de um tempo, é bom ver que, de erro em erro, a gente acaba acertando alguma coisa; não tinha como ser diferente. e sou bem, mas bem otimista em relação a isso. gosto do que faço, e 'perder' dois dias de férias em nome desse sentimento me ajuda também a entender um pouco da workaholic que tenho dentro de casa. ah, gláucia.
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um ano já, quem diria?
um monte de gente.
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here it comes - doves

13.4.10

500 days of summer

Teve aluno morto à frente da universidade, bem no centro. Teve três ônibus incendiados em menos de 48 horas. Tem a tragédia toda das famílias inteiramente desmanteladas, lá longe, todo dia martelando o noticiário com novos números. Tristes números.

Eu podia apenas saber que tem muita coisa nessa vida mais séria com o que se preocupar. E há. Mas hoje, alguns anos depois de percorrer aquele velho caminho, pela manhã, e parar naquele quiosque de 32 anos, praquele café (preto e tão bom), senti um desalento e um alívio. Desalento por ver um patrimônio histórico sendo destruído, aos poucos (até porque a coisa lá é lenta), travestido de modernidade. O novo calçadão é uma lástima, no sentido puro da palavra. Desmerece, sem querer, a maiúscula que já lhe fora conferida. Padece de identidade. As pedras coloridas que se esforçam pra copiar o desenho do mosaico preto e branco se perdem, sufocadas por tanta milimetrice austera.

O alívio vem por, 11 anos quase vividos aqui, por opção, sentir Londrina como a minha cidade. A primeira sensação doce foi justamente no Calçadão, à noite, em janeiro de 1999, extasiada com aquele cenário tão mediano e tão limpo, tão tradicionalesco (o outro ventrículo do meu coração, a parte paulista, também tem petit pavets) e tão jovem. Incrivelmente jovem. Com os anos a degradação muda o olhar, mas nunca o extermina na essência. E se destroem parte disso, uma parte da minha história, pequena história, vai junto com aquelas pedrinhas sem-vergonhas.
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Naquele filme de ontem, pequenos e enormes recados que servem pra pensar um caminhão de pedras com e sem encaixe. "Da próxima vez que olhar para trás, você deveria dar uma segunda olhada", diz a menina. De tanta coisa que tentou "atribuir significância cósmica a meros acontecimentos mortais", foi a pedrinha mais necessária que eu fiz questão de guardar no bolso.
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there goes the fear - doves

7.4.10

dorme, meu bem

O Saraiva - sim, o personagem - não era fictício. No dia a dia, ele fica adormecido, chega a tirar umas férias longas, mas está lá, piano, até que lhe cutuquem.
A moça chega no destino final, se dá conta de que a mochila com os pertences sumiu do compartimento que fica ao alto. Pertences simples como uma tese de doutorado que não é dela, claro (grifo nosso). Simples como a chave de casa, até hoje sem as partes de cima que um chaveiro lhe identificaria. Tudo isso na simplicidade da uma da manhã, com uma rodoviária simplesmente às moscas.
A moça pergunta já com um curta passando pela cabeça, ou com a novelinha, mesmo, que viria. Seo Cícero, o motorista, pensa alguns segundos e conta que a mochila ficou na cidadezinha que passou, uns 100 quilômetros atrás. "Desceram com ela por engano, mas tá guardadinha. Ah, só amanhã pra rever".
Seo Ene - a moça não fez questão de ver o nome - pergunta se ela viu a mochila descer. Seo Agá - a regra vale pro distinto também - quer saber se a moça (parece que dormiu dois terços do caminho; estranho, pra essa moça) viu "a pessoa descer com a mochila". Claro que ela viu: a bolsa usava adidas e saiu faceira, apesar da frente fria acolhedora. Ah, e óbvio que a moça (desatenta, essa moça) viu a tal mochila, calçadinha, sair de braços dados com o esperto que dormiu um pouco mais que essa moça. Que, afinal, esperou tudo isso só pra ter um momento de lazer na vida dela, à uma da manhã de uma terça-feira gelada, com Seo Ene e seo Agá.
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Pantoprazol pra essa moça, aliviadíssima.
(Torres Pastorinho tem discípulos londrinenses, certeza)
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Algumas respostas são mais aguardadas que aquela mochila de viagem. Por isso, me disse, a moça começou a tarde no superlativo daquela sensação. Esperas que levam anos e esperas de alguns dias (que parecem anos), sanadas com as respostas certas das pessoas certeiras, dão um comichão de que, ufalelê, saraiva dorme.
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a day in the life - beatles

28.3.10

pondevista

Duas semanas pra alforria.
Duas.
Hoje eu falava pra minha mãe dos exames a menos que ela tinha pela frente - mais uma leva deles, um ano quase após a cirurgia. Pensar em "exames a mais" parece desanimá-la (e eu fico triste com isso), então tentei explicar que, os fazendo agora, é algo a menos com que encher a cabeça (e eu fico bem feliz quando vejo que ela ouve isso).
Portanto, duas semanas a menos na minha espera pela frente, com preparativos a mais (aí eu vi vantagem) pra dar conta.
Jesus toma conta.
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here comes the sun - beatles

21.3.10

polianas coronarianas II

Podia atribuir amizade a um monte de coisa - atitudes, palavras, mas a memória, seletiva até nisso, teimou em ficar com aquele dia na lembrança. A mão estendida na beira da rua, no instante em que as outras ruas davam pro nada, ou cruzavam, confusas; a crença no sorriso depois da tempestade; o empurrão que faltava.

Foi esse o parâmetro mais bonito de amizade que a vida me ensinou.

Boniteza e dureza de parâmetro. Você passa a não se contentar com a profundidade de poças d'água, mas também a ver que a aridez das ruas confusas seca além delas próprias. É esvaziador. Seletivamente esvaziador.
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Não se apagam as digitais das vidas que tocamos, não foi assim que você ouviu? Acredito. Por isso que criança não põe a mão no fogo duas vezes. Não tem pasta de dente que salve. Só o aprendizado.
Sê todo em cada coisa / Põe quanto és / no mínimo que fazes - não foi assim que você leu? Disfarce, consigo, a compreensão. Por vezes é bom deixar de ser pessoa.
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Nada original - Pato Fu

10.3.10

polianas coronarianas I

então juntou todos os pedacinhos feitos em cacos até que se formassem novamente um pedação colado. 'lego' sempre foi dos seus passatempos preferidos. mas tinha se esquecido. tão óbvio que resolveu aprender a jogar paciência – ainda não aprendeu, tantos anos depois do primeiro micro. a imprudência a 100 por hora tem ajudado a entender alguns lances desse jogo moroso.
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aí notou aquelas pessoas, o tempo estampado nas mãos, em relevo, buscando o direito de sair às ruas (legalmente) motorizadas. o olhar de curiosidade e entendimento do rapazinho que fitava décadas de vida, pelo computador, fez da espera algo menos monótono. é curioso como o óbvio, por mais definitivo que se imponha, seja capaz de ainda estarrecer.
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aí prestou um pouco de atenção na propaganda da tv local – buscou uma concentração rara pra tarefa – e percebeu que a tônica de uma e outra eram opostas. a do pretenso jornalão dizia que ele era a solução pra quem queria 'respostas pras perguntas'. a do canal educativo apresentava várias perguntas como mola propulsora de um mundo em processo constante de descoberta. então, na teoria, gostou da dicotomia.
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the loneliness of the middle distance runner - b&s

8.3.10

simples assim

então eu peguei o keane que repousava na prateleira nova e resolvi dar a ele uma chance nova - tão diferente dos outros dois, esse um. terminei com a sensação do antes-tarde-do-que-nunca martelando o peito. sensacional. redenção, alívio e um ligeiro aperto por ter deixado correr tanto tempo.
vai passar.
.
love is the end - keane
nothing can touch us and nothing can harm us
and nothing goes wrong anymore

14.2.10

avisa que é de se entregar

"A idade traz experiência", "a experiência traz sabedoria", e, puxa, mutiplique por 100 o número de chavões que relacione avanço do tempo com inteligência, que você vai chegar perto de quanta bobageira se pode pensar e falar a respeito. Não que os anos vividos não representem ensinamento, muito pelo contrário - só acho uma pena quando se estabelece O QUE é a tal sabedoria, em que patamar ela se encontra e quais mecanismos o reles mortal precisa adotar pra acessá-la da forma "como se deve".

Puxa, que narigão de cera pra falar uma coisa simples: não aguento mais ler e ouvir o povo reclamar que é época de carnaval, e que merda que é carnaval, e que droga que é ouvir samba e pagode (sim, tem gente que acha que é tudo igual), e que chato ligar a TV e ver que é só isso que passa, e que, e que, e que... ah, vá, vá. Do feriado ninguém reclama, né?

Que eu saiba, uma emissora tem a exclusividade de transmissão dos desfiles. E, ainda que seja um saco ver chamada de carnaval um mês antes do evento (sou a primeira a reclamar, reconheço), é simples: controle remoto. Tá difícil? Tem CD que não é de samba-enredo pra se ouvir e um monte de livro bacana - mas um monte mesmo - que não trata da tal festa. Cinema, ao que consta, também nao fecha nas noites carnavalescas.

Goste-se ou não, é expressão de parte da cultura do país. Sem nacionalismos, ok?, só constatação. Assim como o espanhol acha uma beleza festas em que touros saem correndo atrás de pessoas - ou, que nojo, em que é pu-ra diversão tacarem tomates uns nos outros -, ou o tediante (pra mim) 4 de julho, muito brasileiro (e gringo) vê no carnaval a festa que melhor representa o Brasil.

Eu já achei tudo isso um porre, e creio que, em grande parte, porque nunca tive muito a dimensão do que é o samba na identidade musical do brasileiro, e nem tenho ainda, plenamente - quem tem? Mas mudei conceitos fechados e me sinto muito bem com as mudanças. E me incomodo quando vejo que, nem por desconhecimento ou antipatia - meus antigos combustíveis -, mas por puro modismo, mesmo, tem quem se divirta e gaste um tempo ignóbil em desancar tudo isso.
Baita conceito aberto esse da sabedoria, né? Curuzes.
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Se sentir sozinho no meio da multidão é fácil. Quero ver a proeza acompanhado. Em breve, um manual.
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Eu escrevi aqui que 2010 vai me deixar saudades. Espero (mantra: esperoesperoespero, ouuummm) que saudades daquilo que for/foi feito, e não deixado de fazer.
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Pois é - Los Hermanos

2.2.10

labirinto de corredor em paralelo

Às vezes eu me assusto quando paira, de perto ou de longe, a pergunta do "onde foi parar o afeto do mundo?"
Acabou? Quais as tendências? Existe reversibilidade no processo, uma vez este "efetivado com enorme sucesso"?
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Onde foi parar o afeto do mundo? Num recôndito que nem a memória lembra mais (de tão bem guardado que foi, quedê?), numa carta que os olhos perderam por aí, numa oficina de como-fazer-amigos-pra-sempre-num-estalar-de-dedos e perder outros com a mesma competência? Numa fábrica de produção e de esfacelamento de doutrinas?
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Onde foi parar o afeto do mundo? Na lua enorme que fez hoje, contemplável a sós, e, nessa toada, agora não mais que um fenômeno... natural? Nas ruas cheias de sujeira misturada com gente, de gente envolvida em sujeira, em sujeira que não se recicla? No descompasso antes sôfrega, agora meticulosamente trocado pelo desalento que nada produz - sobretudo não produz nem subestima o que não se encontra na lama, jogado aos porcos? Na relação respeito x produtividade tão obtusa aos relacionamentos antes... como era, mesmo... "humanos"?
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Onde ele foi parar? Em 140 caracteres, em monossílabos criados e que se presumam cheios de significado, mas deteriorados pela automaticidade da produção em larga escala (fria escala, essa), num copo de saquê adociçado por olhares furtivos que pouco entendem sobre onde, afinal, foi parar o afeto do mundo?
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Pergunta estranha, pra gente esquisita. Não tenho a resposta. E, hoje, nem quero.
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tiê canta

28.1.10

esqueça a rima que for cara (devagar)

E é então que a alegoria da mochila e seus pertences fica insistente na memória. O que se guarda? O que tirar antes de por fogo na tal, no dia seguinte, de manhã? Fotos pra que, se existe ginko biloba pra memória? O que faz mais peso nas alças?
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E é então que essa tal 'alegoria' não me sai da cabeça. Acordo com umas palavras - já foi pior: músicas bregas, por exemplo - que não ouvia ou lia há muito tempo. Hoje foi essa, numa brincadeira tonta com um amigo; ficou, foi pra alça. Amanhã, quando eu acordar no duelo com os quatro alarmes, já esqueci.
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E então eu me lembrei daquela mulher que vi ontem cedo, logo cedo, e já com um olhar de quem havia passado uma semana inteira pensando sem solução pra não sei o quê. O que ela procurava naquela esquina, sentada à frente do estabelecimento (mais um) que virou mocó em ponto nobre? Não sei. É difícil às vezes encontrar, pra si e pros olhos - esses seres de vida própria -, respostas pro que se procura numa esquina. Talvez só atravessar a rua, olhando o semáforo. Um saco chegar a uma conclusão besta dessas depois de olhar um tempão pro céu imaginando que um avião, caindo ali, podia ser também uma das alternativas. Não é, e atrás alguém buzina, porque a luz vermelha esverdeou.
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Aí, janela à tarde escancarada graças à pane do ar condicionado, eu vi aquelas pessoas andando, tranquilas, enquanto caía o mundo em forma de pancada de chuva de 10 minutos, fazendo fusquinha pra um sol bonito que abriu (me disseram depois que, inclusive, com uma faixa de arco-íris). Estranhei o que os olhos mostravam, e agora percebo que os seres de vida própria, suscetíveis a alegorias tolas, não perceberam que não era gente exatamente alheia à chuva. Teria algo, aliás, em suas mochilas?
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Samba de um minuto - (claro,) Roberta Sá

29.12.09

pelo sabor do gesto

O Natal em casa me chamou a atenção às pequenas iniciativas cada vez mais deixadas pra trás num mundo de facilidades – facilidades compráveis, claro. Me lembro de como era bom, no final de semana, tarde de sábado com Chacrinha rolando solto na TV, minha tia comprando umas bolachas de leite redondas, mas cheias de quadradinhos (que voltaram recentemente mas podiam sumir, junto com as Passatempo. Ugh.). Nas lembranças, me pego acompanhando meu avô lavando o carro, ou meu pai dando um trato na motoca.

A vó falava que o carro ainda enferrujaria, tamanho o cuidado semanal. Ocorre que meu avô tinha um oleozinho danado, em spray, cuja aplicabilidade até hoje desconheço, mas que obtinha a façanha de o conselho da esposa não se transformar em sentença.

Enferrujaram-se os hábitos, deram spray em outros, os tempos mudaram. O lava-jato dá conta da limpeza do veículo, mas não com aquele zelo do todo-mundo-querendo-ajudar – um com os tapetes, outro querendo lavar os pneus. No final da tarde, enxarcados, ainda tirávamos no par ou ímpar, eu e meu irmão, quem faria os serviços de secagem antes do banho e do passeio triunfal. Curioso é que sempre um ganhava (não conheço, ainda, outra possibilidade pro par ou ímpar), mas nenhum abria mão de sair flanela em punho pra tirar a última gota do capô. Pu-ra emoção.
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O supermercado oferece uma sem-gama de possibilidades pra ceia natalina. Na fila pro pão, vi pessoas desesperadas em busca de massas de preparo simples, desde que com um mínimo de planejamento. E olha que sou eu falando... Na contramão desse processo, a preocupação de minha mãe com algo feito por ela própria, da origem à embalagem de presente, me tirou um pouco do torpor. Assim como as horas investidas de limpeza do carango regadas a conversa com o vô amado.
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É um torpor estranho, esse; sazonal, mas com uma intensidade que ainda estou descobrindo, nesse final de ano - até pra saber se ele é um mal estar passageiro ou uma seta indicadora. Aquele mal estar de sentir tudo seguindo um ritmo impessoal, sistêmico, em que todo mundo é o 'querido' da vez agora, ou daqui a pouco – não importa: importante é dizer, travestido de certa cordialidade –, sendo o 'querido' seu conhecido ou seu melhor amigo de anos. Acho que enferrujei, ou não entrei ainda nessa engrenagem de facilidades não exatamente dispostas numa prateleira física, mas presentes no atacado com um mínimo de prática. E de estômago.
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A vida foi feita pra ser parida. Ela me faz movimentos de contrações, e eu entro nela.
O problema é a hora do parto: se estará, algum dia, plenamente pronto pra ele?
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Que o próximo ano venha sob medida. Sem pesos nos dois lados da balança, por mais incrédula que eu me sinta apostando nisso.
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Ambição - Rita Lee (versão Zélia Duncan)

15.12.09

ahn? onde? como? por quê? "Pra quê?"

Fim de ano aí, verão no bico (eu podia não lembrar desse detalhe...), balanços do que se fez e se deixou de fazer batendo na porta, enxeridos. Eu tento evitá-los, e esse ano o balanço seria um tanto, digamos, diferente - em vários sentidos. E nem tão diferente assim, em outros. Algumas capacidades minhas parecem infinitas. Só parecem, eu vou descobrindo aos poucos, movida ao canto e a fogo. A dias que valem muito a pena e a dias que, enfim, fazem-parte-do-calendário-e-pronto. Precisam existir, que se há de fazer?

Seria um balanço tão diferente que eu prefiro só pensar que 2009 vai acabar num estalar de dedos e 2010 vai ser um ano pra deixar muita, mas muita saudade. E dessa vez, não de mim.
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Love will tear us apart - The Parsonage

10.12.09

sem papel de presente

- a vida é movimento
"Quem pariu Mateus que o embale"
- a vida é movimento
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"
- a vida é movimento
"Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor"
- a vida é movimento
"Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do não"
- a vida é movimento.
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Eu vejo Mateus ser embalado e o embalo. Cativo o que pode ser um fardo ou "um descanso na loucura" sobre minhas costas ou parado na garganta. Não tenho ódio, graças a Deus, porque alguma coisa ainda me faz crer que nem tudo nesse mundo cão está perdido. Quase perdido? Vai saber - pro totalmente, faltam algumas léguas das quais quero outras de distância. Acredito mais (ou menos) do que deveria acreditar, duvido menos (ou mais) do que deveria duvidar, entendo cada vez menos (ou mais) de livre-arbítrio de cima de um muro a despencar e corro, porque é em movimento que eu quero ser, também, espectadora dessa descoberta caoticamente organizada a se embalar.
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Mais alguém - Roberta Sá

8.12.09

apud cá dentro

Passei a desconfiar de certos chavões. Desconfiança que pode ou não ser sinônimo de incredulidade.

Chavões como o do "quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece". Troquei os verbos. Vi que o chavão pode, sim, fazer todo o sentido.

Passei a desconfiar também de algumas citações que antes, pra mim, não passavam mesmo de citações literárias – lindas, mas próximas demais, talvez, de um dia a dia tão do outro. Um outro lírico, distante do meu cotidiano do, muitas vezes, um-dia-depois-do-outro. O dia a dia das contagens regressivas, dos abraços perdidos e das saudades martelantes.

Citações de Sartre, tentando delimitar um pouco do inferno que há na terra; citações de Guimarães que me tocaram pra sempre, quando li, num chão de museu, que "qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura".
(...)
Sinônimo, não: a desconfiança é o antônimo.
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29 - Legião